A CRIANÇA QUE NASCEU COROADA

A maioria das crianças da Ilha nasceram por lá mesmo, mas não aquela criança. Racheline, ou apenas Rachel, nasceu em Corona em um dia de sol, um parto complicado para Gothel que com a ajuda de uma anciã colocou no mundo a sua herdeira, a primeira delas, o sonho de gêmeas veio ao chão quando a anciã anunciou que a mais nova tinha morrido, mas a história de Rachel nasceu bem antes dela, quando dois vilões fizeram um acordo.
Com a falha tentativa de conseguir mais uma coroa para anexar as Ilhas do Sul, o príncipe Hans tomou decisões que talvez se arrependesse amargamente anos depois, mas algo além de dizimar parte da sua família para ascender ao trono não poderia ser pior, mas era. A bruxa esperta foi requisitada para que as tropas das Ilhas do Sul que se aliavam ao agora rei prosperassem, Gothel gastou até sua última gota de suor para manter os soldados do Sul avante e quando a guerra terminou ela veio cobrar seu preço.
Hans estava nas mãos da bruxa, depois de aceitar um favor daquela magnitude ele deveria pagar a altura, tudo que Gothel pediu era que ele fosse o pai de um filho dela, alguém seriamente digno de carregar o herdeiro de uma bruxa, o rei desconfiou já que ele era um mortal, mas acabara por aceitar, o problema é que pedir favores a bruxa virou corriqueiro, Gothel por um curto período de tempo se tornou o braço direito de Hans nas Ilhas do Sul e como pagamento a mais um dos favores ela exigiu que uma das garotas que carregava no ventre se tornasse a legítima herdeira ao trono, Hans sem ter o que fazer e como recusar acabou aceitando.
Gothel escondeu de Rachel sua existência de Hans, pouco depois do acordo selado ela e muitos vilões foram mandados para a Ilha dos perdidos, a bruxa ainda demorou mais tempo, mas com a filha pequena nos braços foi presa naquele lugar que ela considerava imundo enquanto o rei tirano vivia lá fora com o trono que era de sua filha. Na Ilha Gothel ensinou Rachel magia, mesmo que não pudesse praticá-la por causa das barreiras mágicas, tornou-a versada em magias de cura e ligadas a vitalidade, ensinou Rachel a domar o caos e transformá-lo em magia, já que ela como filha de um humano não a tinha naturalmente, não era como Katherine, sua irmã mais nova.
AURADON ESCONDE SEGREDOS

Rachel foi relutante em se separar da mãe, mas com a promessa que Katherine também poderia ir, a garota acabou cedendo. Juntas as irmãs foram para a escola de Auradon e abandonaram a Ilha dos Perdidos de vez, o que era para ser apenas pra dar a elas uma boa educação se tornou o mártir inicial para uma mudança na vida de Rachel.
Foi em Auradon que ela descobriu quem era seu pai, vendo que a filha só se interessava em intensificar a sua magia e não em encontrar um bom casamento, Gothel jogou a bomba que baqueou não só o psicológico de Rachel, mas de alguns a sua volta, o que incluiu Katherine também. Depois do dia que ela recebeu aquela carta nada mais foi totalmente paz na sua vida, muito pelo contrário, aos poucos ela sabia que a hora de conhecer o seu pai chegaria, ela era filha de dois vilões, como negar esse legado?
Em meio ao confronto criado por alguns vilões, que surpreendeu Rachel por não ter sua mãe envolvida, a garota se viu em um impasse, encarar verdadeiramente o pai ou não, já que vinha negando a ligação de ambos e até mesmo algumas sutis investidas dele de se aproximar dela, ela era uma garota da Ilha dos Perdidos, filha da Gothel, não dele, mas Hans foi insistente, bastou um erro de cálculo da filha tentando salvar a amada de um amigo para que ela fosse feita prisioneira por um dos pilares da revolução vilanesca, Rumple.
Com Gothel fora de alcance e seu livro de feitiços revogado, Rachel se tornou prisioneira do vilão por um tempo, sua estadia na residência do senhor das trevas só não foi pior pois o seu pai interveio, nunca esperando muito dele a garota via com péssimos olhos o que Hans bondosamente fazia, quando chegaram as Ilhas do Sul a verdadeira proposta dele se viu vindo a tona, ele a resgatou pois queria que sua filha ascendesse ao trono, como Gothel havia exigido e o amaldiçoado, mas Hans não confiava plenamente na garota, impôs a ela um casamento forçado, sem alternativas e não querendo que seu pai morresse por sua culpa, Rachel largou sua vida em Auradon e se tornou noiva do escolhido por seu pai.
A COROA CORROMPE

Dizem que o poder costuma subir a cabeça, ainda mais em uma tão frágil, a magia de Rachel sempre cobrou um preço para um corpo que não estava naturalmente preparado para recebê-lo, com rompantes de ódio constantes e aparência alterada constantemente por magia, o tempo passado nas Ilhas do Sul foi de longe o mais torturante a ela, a magia de Gothel e o caos que ela inflingia a cada vez que era usada corrompiam Rachel, ainda mais no clima familiar nada agradável em que se encontrava.
O embate entre irmãos pela coroa ia ficando cada vez pior, seu irmão era o herdeiro conhecido pelo povo, ela era a herdeira que Hans tinha escolhido, os dois discutiam sempre que possível e tudo só piorou quando Rachel e seu irmão souberam da morte de seu pai, Hans não suportou aos males da maldição de Gothel, vindo a falecer tão em breve e deixando um clima ainda pior.
Os irmãos entraram mais ainda em atrito, mas dessa vez tomaram caminhos distintos, Rachel passou mais tempo nas Ilhas do Sul, enquanto a vida corria em Auradon, os preparativos para a sua coroação corriam, no momento da morte de seu pai ela pensou em desistir, mas viu ali que a maldade de sua mãe era tão grande que de pai a maldição passou para filha, a coroa pesa e ela estava doente de uma forma que nem a sua magia poderia curá-la, só a coroa.
Ainda relutante em aceitar o seu destino, Rachel foi coroada contra a vontade de muitos pouco depois do seu aniversário de 20 anos, se tornando então Vossa Majestade Real, Rachel Westergaard III, Soberana das Ilhas do Sul, Chefe da Guarda Real, Senhora dos Bosques de Alfella, Líder das Sacerdotisas da Noite do Sul.
Com o poder em mãos ela começou a gostar da coroa, da posição em que sue pai tinha lhe colocado, a maldição regrediu aos poucos e ela se viu melhor para voltar para o local onde se sentia bem, para isso deixou sua avó Meridiana Westergaard tomando conta do trono das Ilhas do Sul junto com o conselho.
Mas o que pareceu ser um momento de paz logo se mostrou outro problema, Hans não desistiria de fazer Rachel sofrer pelas decisões errôneas de Gothel, um contrato dava ao primogênito de seu irmão o trono das Ilhas do Sul a não ser que ela realmente se casasse com alguém digno das escolhas do pai, isso deixou Rachel tão furiosa que a magia e o caos de Gothel voltaram a tomar conta dela.
Deus salve a rainha louca.
OS MORTOS DIZEM BOM DIA

A cabeça pendeu um pouco para o lado, alisei o pescoço sentindo a dor latente, porém fraca, suspirei mais uma vez fechando as janelas, o reino aos poucos voltava a suas raízes e as luzes lá fora eram quase um borrão da tarde, poderia abrir as cortinas em breve, visto que a luz irradiada por qualquer coisa me irritava os olhos, esses que variavam de um verde claro a um tom mais escuro, o que me assustava. Os remédios sob o móvel foram tomados a seco e aquela decisão pesou segundos depois ao notar a garganta incomodada, mas conseguindo digerir tais comprimidos.
A batida leve na porta chamou a atenção, girei o rosto e por fim o corpo, a mão se ergueu para abri a porta, mas hesitei, olhei os anéis entre os dedos e outro suspiro permeou o ambiente, abaixando a mão e caminhando até a porta, os tecidos do longo vestido de um verde turvo balançavam ao caminhar, eu não era de evitar a magia, mas estava ficando com medo dela, o que nunca aconteceu, ah! mamãe ... O que eu não daria para ter você aqui ainda.
— Majestade, me chamou? — O homem vestido com roupas de couro escuro se colocou em posição ao ver a minha figura.
— Sim, William. — Pressionei os lábios. — Como estão os membros da família real?
— A Rainha Mãe e vossas altezas já se preparam para o jantar, majestade se juntará a eles essa noite? — Eu não comia com eles a dias.
— Não. — Respondi solene, sem mudar o semblante. — Meus irmãos ... Eles chegaram as Ilhas?
— Nenhum deles respondeu a sua mensagem, nós po...
— Não, não. — O interrompi. — Dean está ocupado com algumas coisas, Amos ainda aprece raivoso e Prudence ... Deixa. Tenho outro trabalho para você.
Meneei a mão com certo desdém, meus irmãos tinham seus problemas, eu tinha meus débitos. Suspirei calmamente mais uma vez, dessa vez esperando que William passasse e se juntasse e mim, a porta bateu, mas sem que eu fizesse isso, e sim o guarda. Ele continuou de pé, em sua solene posição e eu me sentei ao ponto de que o observava, ainda sem meu livro, mas com alguns truques na manga, uma bruxa nunca está desprevenida.
Não haviam muitos bruxos nas Ilhas do Sul, na verdade a magia de lá era fraca, o que fazia sentido visto o tanto de acordos que a família real possuía, muitos que caíram em terra, outros que foram totalmente usurpados ou deturpados, era um reino fraco, com uma rainha em crise. Tateei a cômoda procurando mais remédios, eles bloqueavam a minha magia, mas era necessário, a magia negra não me deixava dormir, consumia minha energia. Engoli outro comprimido a seco e apertei o punho, tentando parar de tremer.
— Majestade, está tudo bem? — William perguntou ainda mantendo a posição.
— Sim, praticar magia sem meu livro é mais difícil do que pensei. — Tossi duas vezes olhando depois pela fresta da cortina. — Estou me acostumando, é um processo longo.
— Ele ainda não voltou? — O guarda quis saber.
— Não e nem vai. — Expliquei. — Ele é da Hope agora, quanto mais eu me desligar da minha mãe melhor. Mas não é sobre ela que vamos falar, é sobre meu pai.
Tossi mais duas vezes, dedilhei a poltrona e olhei a janela, já me sentia melhor, o remédio tinha alguns efeitos, mas me fazia ficar no controle. Me ergui quando finalmente vi o sol se pôr, o grande quarto de enormes janelas estava escuro, com as poucas luzes que iluminavam o ambiente, bem gótico e medieval posso afirmar. Num sinal de mãos as cortinas se moveram e as janelas se abriram, banhando o ambiente com o resto da iluminação da tarde, pífia, além do vento da noite.
— Vá ao mausoléu, leve guardas com você, além de roupas limpas do meu pai. — Ordenei me erguendo. — Preciso de velas também e um cobertor, vai estar frio para ele lá em baixo.
— O que planeja, Majestade? — Ele hesitou, mas perguntou.
— Vamos trazer Hans Westergaard de volta. — Respondi calmamente, como se fosse a coisa mais fácil dos mundos. — A verdade é que a morte dele é minha culpa, meu fardo.
— Mexer com os mortos não é certo, a senhora sabe. — Pobre William, tentando me fazer desistir. — Não sabemos nem como ele poderá voltar, pode nunca mais ser o mesmo.
— Nós já não somos mais os mesmos, meu caro. — Sorri de canto me apoiando na poltrona em que repousara pouco antes. — Vá, eu arcarei com as consequências, como sempre.
Tive que meditar por algumas horas, esperar que todos se recolhessem e tentar entrar em contato com as trevas, como a prática de magia em geral, tudo que é novo leva tempo para se acostumar. Foi doloroso, mas eu aguentei enquanto tentava contato, na hora certa despertei da meditação e me vi em um quarto escuro, as trevas sobrepuseram até em relação à luz sempre saltando em meio a elas.
Os guardas parados em lugares estratégicos nem se mexiam, eles apenas moviam os olhos com meu caminhar, os corredores com luzes apagadas eram banhados apenas pela luminosidade da lua, calma, serena e destoante em comparação ao que estava por vir.
Ajeitei o longo vestido, sempre odiei vestidos, mas esse era confortável, não me apertava. Caminhei pelo jardim, as flores cresciam depois do caos, as camélias criadas pela Rainha Mãe estavam bonitas naquela época do ano.
A entrada do mausoléu estava iluminada por algumas tochas, os guardas se colocavam em posição e William, o líder da guarda da noite, me esperava com o que havia pedido, acenei a cabeça, a grande sepultura de mármore se destacava dentre todas, as pessoas não perdiam um membro da família real a muito tempo. A grande pedra havia sido retirada e sob a almofada mais macia já vista em um interior estranhamente acolchoado, Hans estava pálido, gélido e quieto, como se dormisse, a pouca magia ali presente era usada com ímpeto para conservar os corpos, seria estranho dizer que aquele local parecia um grande freezer?
— Afastem-se! — Ordenei me abaixando. — Vai ser rápido, dolorido e ... Espero que dê certo.
Me abaixei perto do corpo de Hans, alisando a bochecha fria dele enquanto me sentava no chão, estava sob o olhar de pelo menos dez guardas reais, na mais decrépita cena já vista. Suspirei tocando a mão dele em seguida, rígida, os dedos mal dobravam, fechei os olhos entoando o ântico iniciado em meu quarto, as sombras chicotearam se afastando de nós, assim como os guardas, tocá-las não era o mais inteligente, de tão frias elas queimavam, envolveram a mim e meu pai de uma forma que os guardas não podiam me ver.
Era minha culpa, sempre minha, a criança que nasceu coroada, que sucumbiu ao peso da coroa, que não aguentou os segredos de Auradon, a criança maldita. Continuei sussurrando enquanto as chamas pareciam me queimar, tirando de mim algo tão precioso, a vida. Os cabelos escuros tornavam-se brancos, as mãos lisas e jovens permeavam-se de rugas, tudo, absolutamente tudo, dizia a mesma coisa, eu estava morrendo enquanto dava minha vitalidade a Hans, ele por outro lado vivia, as bochechas coravam-se e a mão passou a apertar um pouco a minha. A pressão no pescoço era tamanha, como se me estrangulassem, as trevas torciam por um vacilo, se não fossem os remédios possivelmente já haveria sucumbido.
A fraqueza tomo-me por inteira, as sombras dispersaram-se com força, quanto meu corpo decaía finalmente ao chão, William serviu como apoio ignorando o eminente perigo. Clamando por fôlego o corpo deitado na cripta ergueu-se puxando todo o ar possível, enquanto minha aparência lentamente retornava ao normal, meu pai estava confuso, cansado, também nu já que as trevas queimaram-lhe as roupas.
— Cubram seu príncipe. — Respondi aos guardas, tentei limpar a garganta, mas era como uma grande inflamação, afastei William me mantendo ajoelhada ao lado do túmulo. — Bem Vindo de volta, pai.
OS SACRIFÍCIOS FEITOS PELA FAMÍLIA

A bruxa estreitou os lábios, havia se pronunciado sobre seu débito, sobre como a corte das Ilhas do Sul devia não as bruxas de Alfella, mas devia ao Cosmos, o que era muito pior. Atrairíamos pestes ao nosso povo e o questionamento que permeava minha cabeça era sobre se valia a pena, nossas vidas eram tão mais preciosas? A mão de William sobre a minha me fez sair do devaneio em que me encontrava, pisquei algumas vezes sentindo o afago e depois puxando a mão novamente, o rosto se virara para a bruxa.
— Temos tempo para tomar a decisão final? — Perguntei e ela se limitou a responder de cabeça baixa em uma confirmação tristonha. — Ótimo, não decidiremos até que Dean e Amos retornem as Ilhas, isso é um assunto de família.
Com um aceno de mão a orda de guardas foi dispensada a minha irmã saiu do meu campo de visão junto da bruxa, a única pessoa a continuar na sala do trono comigo era William, quem não olhei ou dirigi uma palavra, apenas fiz permear o silêncio enquanto admirava um dos vitrais que garantiam a mais bela visão da sala do trono quando o sol rebatia na mesma. As pernas descruzaram e eu apoiei os cotovelos nos joelhos, afundando o rosto nas mãos em seguida, eu estava cansada, muito cansada. O silêncio maior era justamente por sabermos mais do que ninguém o fim disso, ergui a cabeça lavando o indicador próximo ao rosto. — Não fale nada. — Pedi ao homem ao meu lado, bastava o terror da minha mente.
Eu só tinha 20 anos, quase 21, era certo dizer que eu tinha muito da vida para aproveitar, mas olha onde estou agora ... Colhendo os frutos podres deixados por mais pais. Minha avó, em sua vasta vida real, o que é toda ela lembrando de onde viera, me alertou que ou você nasce real ou morre sem ser, para o bem e para o mal, não há meios termos, ela não falou isso por mal, mas como um alerta, eu infelizmente não consegui ver como era na época, por isso agora enquanto caminhava pelo corredor o que mais ecoava não era os saltos contra o chão, era o vazio na mente, um silêncio enlouquecedor.
Parei a porta do quarto, não o meu, a cor ébano da madeira me deixou presa a olhando por alguns segundos, quando a toquei senti a mão de William sob meu ombro, ainda respeitando minha decisão de permanecer calada. — Preciso falar com ele ... — Os olhos passavam pela madeira escura e duas pequenas falhas em uma das extremidades. — Sozinha, Will. — Pronunciei empurrando de leve a porta, havia fardos que ele não devia carregar por mim, o fato dele respeitar isso na hora certa é o que me fazia amar William ainda mais.
A figura de Hans sob a cama encarou a minha assim que fechei a porta, o homem de meia idade vinha sendo mantido em um espécie de quarentena desde que se levantara dos mortos, ele fechou o livro e apontou com a cabeça para o lugar onde eu deveria me sentar, uma poltrona de cor carmin que rebatia um bocado o tom pesado do lugar criado, principalmente, pelas cortinas de cor escura.
— Como foi a chegada da bruxa? — Ele perguntou tirando os óculos. — Elas nunca chegam na paz, é incrível como Alfella guarda segredos e problemas.
— Foi conturbada, mas você já sabe. — Suspirei ajeitando o vestido. — Quem era sua bruxa? Nunca me falou dela.
— Era sua mãe ... — Ele respondeu com um estreitar de olhos. — Nem preciso dizer que isso ofendeu as sacerdotisas e enfureceu o conselho.
A relação dos meus pais era algo que eu nunca perguntava a fundo, mesmo tendo acesso a memória deles por magia, na verdade eu tinha medo de me afeiçoar por seus erros a ponto de querer repetí-los. Ajeitei as costas, cruzando as pernas e apoiando o corpo de fato na poltrona, ele me parecia bem, mas um pouco cansado, talvez devesse estender ainda mais essa estadia dele em seu quarto.
— Mas você não deve ter vindo apenas para ter alguns momentos sem seu guarda pessoal respirando no seu ouvido. — O riso dele me fez rir também. — Quando escolhi William para te acompanhar, quando era princesa, não achei que ...
— Não ache nada. — O cortei de imediato. — Ele e eu é ... Impossível. Temos posições e problemas diferentes.
— Muito bem, reis vão e vem, mas a coroa permanece. — Ele entendia de sacrifícios melhor que eu, mas saberia de sacrifícios pessoais? — Você pode ser clara comigo?
Inclinei o corpo levemente para frente, como se fosse contar um segredo, abri levemente os lábios e sentia o olhar de Hans sob mim como um falcão, era uma sensação quase palpável, permanecemos assim por mais alguns segundos antes que eu bufasse e voltasse a posição anterior, ainda tensa com tudo que havia acontecido nos últimos tempos, tentei consertar tudo e acabei estragando mais ainda.
— Elas querem minha alma de volta, não é? — Ele não hesitou em dizer e eu o encarei. — Você não é a primeira Westergaard a furar o véu assim, acredite que não é exagero as pragas. As histórias sobre a Grande Doença a dois séculos são reis, o que não contam é que foi pelo mesmo motivo de agora.
— Pai ... — Eu quase não usava esse termo.
— Rachel. — Ele devolveu. — Não me olhe assim, eu sou velho mas lembro de tudo, fui rei não é? Essa família sempre sobrevive. O que ofereceu a elas para estar com essa cara amarrada? Meu pescoço? Admiro sua coragem de vir dar a sentença pessoalmente.
— Nada ainda. — Um longo suspiro veio junto com o desvio de olhar. — Estou esperando Amos e Dean voltarem, Prudence e eu nos juntaremos a eles e o conselho para definir o que faremos, como um família.
Ele deu uma risada anasalada, eu olhei Hans novamente, me aprofundei vagamente nas relações familiares que temos, mas sei que alguns de nossos tios o odeiam, outros nem querem saber da monarquia e Alcallena tem uma cela com o nome Westergaard cravado em ouro onde meu tio Bogart ficou alguns anos antes de sentenciarem ele ao exílio por matar meu tio Niklaus, era uma família complexa, por isso não podia dizer que estranhava a reação de Hans.
— Pare de agir como se precisasse confiar neles, seus irmãos serão os primeiros a apunhalar você quando necessário. — O suspiro longo dele dizia muita coisa. — Seja pelo trono, por privilégios ou por sobrevivência, todos vão fazer isso, pois a coroa está acima deles também e te cabe fazer valer, eles só não vão entender sempre. Para sua sorte eles são 3 e não 10.
— Já apunhalou algum dos seus?
— Todos eles. — Ele respondeu com desdém. — Sobreviver pede isso, sobreviver com a para coroa principalmente.
Perpassei a língua nos lábios, não haveria quem perguntar sobre como isso acontecera e não havia tempo também, a tosse de Hans chamou minha atenção e eu estendi a mão para fazer emanar uma energia esverdeada de cur, haviam meses que eu não usava aquilo em alguém, me lembrava a minha mãe, mas me surpreendia mais ainda por meu cabelo continuar preto.
— Tome sua decisão por si, ninguém vai ter a empatia certa com você, ninguém conhece o peso real da coroa até sentir. — Ele acariciava a minha mão com o polegar. — Rachel?
Preferi o silêncio enquanto divagava por minha mente, pisquei alguma vezes o encarando e recolhendo a mão.
— Tenho coisas a pensar ainda. — Respondi.
— Não. — Ele me corrigiu se ajeitando na cama. — Você já tomou a sua decisão, conte a verdade a eles.
— Você não disse que todos iriam me apunhalar? — Me levantei ajeitando o vestido. — Traidores não merecem a verdade.
— Mas sua família sim. — Ele respondeu rindo. — Ele sim.
Pressionei os lábios me aproximando de Hans, beijei-lhe a test antes de ir para fora do quarto, o corredor vazio me deixou mais tranquila, a medida que eu me afastava dos aposentos de meu pai eu percebia como mesmo na mais torpe certeza ele tinha razão.
O DECAIR DE VOSSA MAJESTADE

Os passos lentos da rainha iam ecoando pelo castelo, o dia finalmente havia chegado e ela sentia as mãos formigando como nunca tinha acontecido antes. O lindo vestido avermelhado contratava com a sua pele alva, a figura parada na porta inicialmente não era de William, mas de Dean, ao ver o seu irmão mais velho, ele manteve o silêncio, depois da execução ele assumiria como regente das Ilhas do Sul no seu lugar, mas seu semblante não parecia concordar com aquilo.
— Não me olhe assim. — Rachel para o mais velho. — Não há outra alternativa.
Os olhos marejados foram secos e poucos segundos depois tomou as mãos do irmão junto as suas, Dean avisou baixo que Stasia estava pronta para a cerimônia, que toda a família real estaria lá, seguindo todas as ordens de Rachel, no corredor lá fora podia ver pela fresta a orda de guardas a espera de sua rainha.
— Entregue todas as cartas. — Ela pediu apertando os dedos daquele que lhe sucederia.
O barulho de porta se movendo revelou a figura de William, ele usava um traje militar, incomum nos dias normais, era usado para cortejos fúnebres, Rachel pressionou os lábios o encarando, Dean saiu do seu campo de visão lhe deixando apenas a observar o guarda a sua frente por alguns segundos, ainda rígida e imóvel.
— Foi um prazer ter sido protegida por você, General Ratcliffe. — Concordou abaixando a cabeça, lágrimas caíram sobre o tecido rubro de seu vestido impecável, feito por Hope e Evie Grimhilde, sendo absorvidas logo em seguida. — A partir de agora você receberá a patente de General da Esquadra Marítima e comandará também nosso exército no mar em nome de vossa Majestade, o rei Dean.
A boca seca, os dentes de Rachel que pareciam doer de uma forma estranha. — Desculpa. — Ela sussurrou.
— Eu odeio quando você me chama de Ratcliffe. — Foi a primeira coisa que saiu da boca do homem assim que a abriu
O uniforme estava lhe incomodando, ou talvez fosse o fato de que Rachel iria embora para sempre… e ele não teve chance de salvá-la. Ele achava que havia falhado com o meu dever.
— Não sei se mereço esse título. — Se aproximou mais dela, observando cada detalhe da rainha a sua frente. William precisava decorar tudo. — Só sirvo a um membro da família Westergaard, e você sabe disso.
Aquele murmúrio foi para que só ela ouvisse. Desde que ele foi parar na Ilha, seu único dever era proteger Rachel. E só depois que ela ficasse segura, o resto da família real. Ele não era apenas o Guarda Real da Rainha, antes William era o Guarda Real de Rachel, e isso não iria mudar.
Enquanto o olhava, Rachel pensava que a parte mais difícil de ter uma coroa sob sua cabeça era lembrar que ela valia mais que você, que a instituição milenar vinha antes de qualquer um e que como rainha você deveria fazer os sacrifícios pelo bem do reino, mas as pessoas se esqueciam que por traz do monarca havia uma pessoa como todas as outras.
— Você serviu bravamente a essa casa real, merece essa posição. — A rainha tentava manter a pose séria, mas o olhar dele lhe desmontava.
Ela sentia as mãos dele junto as suas, era quentes e ela tremia, Rachel estava com tanto medo que sentia os seus dentes levemente bater uns contra os outros. Apertou as mãos dele, ainda trêmula, William e ela haviam deixado de ser só conhecidos a muito tempo, para ela ele foi de um simples guarda para um amigo e agora um amor.
— Eu amo você. — Rachel respondeu baixo. — Fica comigo até o final, por favor, não quero ficar só. — Um dos seus maiores medos era terminar sozinha, ela sentia o estômago revirar só de pensar nisso, a respiração lutava entre o descompasso e o nervosismo.
— Majestade está na hora. — Ambos ouviram um dos guardas falar.
O coração de William disparou quando ouvi o outro guarda chamar, ele pensou que haveria mais tempo, mas não teve como protelar mais ainda a situação. Tomou então o rosto de Rachel em minhas mãos, forçando a monarca a olhá-lo.
— Eu sempre vou estar aqui para você. — Sussurrou antes de, finalmente, beija-lá. Não era nessas condições que ele queria ter feito, mas ele acabou adiando tanto — Eu te amo, Racheline. — E se afastou sussurrando, antes de beijá-la de novo.
Rachel via seu reflexo nos olhos de Will, um mar de olhos azulados, esses marejados pelo que a situação representava, ela perpassou a língua nos lábios segundos antes de sentir os dele junto aos seus. Uma vez a sua mãe me disse que a gente só sabia que tinha um coração quando ele era arrancado do nosso peito e o vemos pulsar, mas agora ela sentia o seu bater contra a caixa torácica com tamanha força que sabia que existia, não era o medo, era William que o fazia saber que existia, que o fazia bater mais forte.
Quando os lábios descolaram ela permaneceu olhando naqueles mesmos olhos claros, a última visão que ela queria ter eram deles, a última melodia era da voz dele dizendo que lhe amava e o calor dos seus lábios nos dela. Quando eles se separaram, ela já via um guarda ao encalço de ambos, por mais que ela fosse a rainha haviam protocolos a serem seguidos.
Caminharam próximos até a sala dos tronos, apenas alguns guardas estavam lá, além da família real, a cada par de olhos que Rachel encarava um vazio maior se formava. A execução seria rápida e indolor, uma injeção no seu pescoço, o veneno criado pelas sacerdotisas agiria pelo seu corpo, seria como um longo sono. A rainha deitou-se sob o pedestal se pedra escura, havia uma almofada e veludo, mas ele - assim como o ambiente - estava frio.
— Pronta Majestade? — Stasia proferiu.
— Sim. — Murmurou. — Will pode segurar minha mão?
Para William aqueles segundos até chegar na sala do trono pareceram uma eternidade. Ele ficou o tempo todo do lado de Rachel o tempo todo, sempre de olhos nela. Ao ouvir o pedido, estendeu a mão para ela, apertando com força. Ele queria fazer algo, o guarda sentia que devia ter feito algo, mas que tinha falhado e aquilo era sua culpa. Mas não deixaria que logo naquele momento ela soubesse disso, não agora. Rachel precisava de paz.
— Eu te amo. — Sussurrou de novo, a encarando, piscando os olhos para não deixar as lágrimas descerem.
Os olhos da mulher em nenhum momento saíram de William, essa era a última visão que ela queria ter, do sorriso dele. Naqueles segundos que se passavam ela lembrava de toda uma vida em flashes, via Amber pintando o a parede do seu quarto em Auradon, se via no chá de Alyssa usando preto lembrava até da sensação de descobrir que Hans era seu pai e de bater a caneca nas grades do castelo de Rumple ... Eram muitas lembranças que iam e vinham em sua mente e ela só foi traga de volta do emaranhado em que mergulhara quando sentiu a mão gélida de Stasia.
— Majestade não vai doer, vai sentir sonolência e será como dormir. — Ela proferiu e a rainha concordou com a cabeça. — Bons sonhos, Rachel.
Parte da jornada era o fim e ali a sua terminava sem um final feliz, mas por um bem maior. Permaneceu olhando para William quando sentia a picada no pescoço, não doía, só parecia lhe anestesiar aos poucos, ela estava com medo, mas não estava sozinha. Aos poucos foi como se Rachel ficasse muito cansada, sonolenta, tentava manter positivas as suas últimas memórias e pensamentos. Apertou o que pode a mão do guarda ... E se despediu.
MOTHER KNOW BETTER

O barulho das correntes era quase inexistente, mas ainda sim eu o ouvia, as dores no corpo eram demasiadas e eu acho que posso dizer que depois de um tempo ajoelhada eu não sentia uma parte das minhas pernas, mas conseguia cochilar por alguns minutos antes de acordar assustada, não sabia se era possível sonhar durante o pós vida, mas definitivamente eu não conseguia. O embrenhado de lamúrias das celas lado se fazia presente, água quente escorria pelas paredes de pedra e tudo naquele lugar tinha um tom avermelhado, abafado.
Escondia-me, contra a minha vontade, no profundo dos sete infernos, tossia sangue nos primeiros dias, agora não mais, talvez um líquido obscuro com um cheiro não tão agradável que era logo absorvidos pelas pedras. Algo gotejava, irritando meus tímpanos, naquela hora eu preferia a não existência do que existir naquela condição, não conseguia chorar, não conseguia nem mesmo me mexer. Era tão grande o crime para ser punida com aquilo?
O ecoar de saltos quase cortava o lamúrio sem fim das almas que sofriam muito mais do que eu, a jaula estava com as portas abertas, mas não havia necessidade nem de existirem, quem não tinha força para se levantar não iria conseguir romper correntes. A figura esguia e de cabelos volumosos parou a porta da minha prisão, a acompanhei sua silhueta com o olhar até chegar em seu rosto que portava um sorriso enigmático.
— Oi, mamae! — Murmurei entre os dentes abaixando a cabeça em seguida. — O que você faz aqui? Veio se arrastar atrás de Hades de novo e ele te deu um pé na bunda?
— Olha como você fala comigo, Racheline. — Ela estreitou os olhos. — Ou deveria dizer Vossa Majestade? Parabéns pela burrice.
Ela se aproximou lentamente, se abaixando próxima de mim e segurando o meu rosto com as mãos, as unhas pressionavam contra a minha carne e ardiam, talvez eu já estivesse tão cansada que as dores eram secundárias a raiva que eu sentia dela, tudo era por causa daquela mulher, desde sempre o seu plano de me fazer rainha, não se importando com o que eu queria, uma vida feita para seguir os planos dela.
Gothel permaneceu me encarando por alguns segundos, eu me perguntava se ela via em mim a mesma ou outra pessoa de seu passado, ela ficou por tanto tempo assim que só soltou quando pisquei duas vezes movendo lentamente ar orbes para o lado, o tossir me trouxe certo desconforto e cuspi mais do líquido preto que meu sangue tinha virado, ela por sua vez apenas se afastou e moveu a barra do vestido para que não fosse sujo por mim.
— Você é terrivelmente parecida comigo ... Na aparência. — Ela se pronunciou. — Mas a personalidade? Ah não, você não puxou do seu pai idiota e nem de mim, você é sonhadora como elas, você e sua irmã, é como se eu visse as duas em vocês?
— Visse quem? — Eu queria que ela fosse embora, mas minha mãe quase não falava do seu passado, então tentei instigá-la.
Minha mãe era um ser misterioso, isso fazia parte da aura dela e também de como ela queria passar sua imagem, mas somente Kath e eu a conhecíamos em seu íntimo, Gothel não era nada mais do que uma pessoa cheia de traumas e que não assumia, por mais que eu estivesse com sono ainda tentava me manter alerta, tudo para que enfim pudesse ouvir os relatos dela mais uma vez.
A vi conjurar um pequeno banco, seu suspiro permeou o ambiente, calando até mesmo os sussurros, Gothel era poderosa como sempre quis, o que ela fazia no inferno ainda não sabia, mas como minha mãe mesmo já bem disse uma vez, ela andaria pelas chamas sem se queimar se fosse preciso, pois ela era uma bruxa e bruxas fazem tudo para ter o que querem, estaria ela viva com um pequeno resquício de seu poder? Teria eu cometido crimes piores a ponto de sufocar com minha própria saliva encontáveis vezes e contiuar viva?
— Suas tias, Hazel e Primrose. — Ela sorriu, nunca havia mencionado sua família. — Mesmo que você tenha uma inclinação como sua avó, Manea, vejo que dentro de você há o mal, você só tem medo de assumir, por isso está aqui, seus genes são trevas.
— Então porque você está livre e eu não? — Rebati erguendo o olhar com certa dificuldade.
— Porque você morreu, já eu só estou de passagem. — Ela se apoiou no cotovelo e me encarou. — Eu sempre quis deixar o passado no passado, por isso você e Katherine nunca souberam a minha história, você acha que eu fui uma mãe ruim? Deveria conhecer a sua avó.
— Wow! — Me forcei a rir, mas doeu e meu estômago tomou-se em giro, me fazendo vomitar um pouco mais. — E ... Isso ... É ... Uma ... Competição?
— Ela ganharia se fosse. — O desdém na voz dela era tamanho. — Se recusou a nos ensinar magia, quando o fez minha irmã Hazel ficou com medo e nossa mãe furiosa, não admitia nada a não ser o melhor, eu e Prim conseguiríamos, mas ela quis nós três e tentou nos matar, mas por sorte nós conseguimos derrotá-la, não sem antes ficar sem o poder dela, mas com as flores. Suas tias tomaram seus rumos, elas não queriam ter ligação com a flor, eu as salvei e elas me deixaram sozinha, é isso que vai acontecer com você, aliás ... Já aconteceu, onde está Katherine?
— Cala a boca! — Falei baixo em um quase sussurro, estava exausta.
— Então com a morte dela a proteção da floresta caiu e aqueles malditos aldeões levaram as últimas flores de Rapunzel. — Ela estava visivelmente irritada. — Pagões banais! Dizem odiar bruxas e levaram a MINHA HERANÇA, eu poderia ser muito mais forte, mas jovem!
Ela se levantou andando de um lado a outro bastante incomodada, cruzava os braços e seus cabelos moviam-se como em flutuação, belos, ela estava impecável, tão linda e radiante, com uma pele incrível, com um longo vestido vermelho sangue e lábios na mesma cor, seus olhos acinzentados quase brilhavam, Gothel estava em sua melhor versão, mas não parecia satisfeita, via nas suas íris a raiva.
Minha mãe parou olhando pra mim, como se pensasse em algo, puxou o vestido de lado para se abaixar próxima a mim novamente, ainda em silêncio, a sua história não tinha chegado ao fim, eu sabia, mas ela parecia analisar se me contava ou não, o suspiro longo veio com o soltar de minha face, qualquer músculo doía ao ter que se mover, algumas vezes pensar também doía e eu não sabia como era possível.
— Não durma, criança. Eu não terminei. — Ela novamente voltou ao seu banco. —Me escondi na casa de uma velha amiga por anos, mas não dava para cultivar aquela for fora da floresta, as coisas só pioraram quando eles vieram e roubaram a minha flor, malditos homens do rei, tudo para salvar a princesinha.
— Então você manteve a Rapunzel em Cárcere Privado! — Falei de forma agressiva e ela riu.
— Não, fui buscar o que era meu, ela era o poder da flor! — Minha mãe insistia em algo que eu não entendia. — Depois eu fiz outras coisas para tentar ascender ao poder, como o seu pai e o pai da Kath, mas definitivamente a garota de Corona foi minha melhor oportunidade e é nisso que temos que nos apegar.
— A rastejar? — A encarei séria.
— A sobreviver! — Ela se levantou e com isso o banco sumiu. — Eu vou te dar uma nova chance, uma oportunidade, lembre-se que você é neta de Maeva, Senhora dos Mortos na Terra, emissária do próprio Hades, bruxa, mãe, bastarda ... Como você!
— Eu não tenho o poder dela para voltar dos mortos, mãe.
— Eu sei, isso você vai ter que dar um jeito sozinha, estou te dando a oportunidade. — Senti o romper das correntes e meu corpo tocando ao chão. — Nisso você é a cara do seu pai.
Essas foram as últimas palavras dela, depois disso só ouvi os saltos se afastando, mas eu estava solta, caída em meio ao meu vômito obscuro, vendo vultos e os mesmos lamúrios que ouvira antes, não demorou para que eu perdesse a consciência ou pelo menos para o que eu achava que fosse. Em meio a aquela história, Gothel mais uma vez me dara um fardo pesado demais e sem escolha, eu teria que voltar.
QUANDO OS MORTOS SE ERGUEM!

Aquilo doía, muito, eu não sabia que uma alma poderia dar tanto trabalho assim, mas acabou por dar, era uma viagem longa, cortando qualquer relação que houvesse entre o plano dos mortos, não havia desrespeitado a Kamatash, havia deixado uma alma para trás, os erros do passado pagando pelos erros do presente sem chances para se quer hesitar.
Eles não esperavam por mim, depois de meses a coroação de Dean já deveria ter acontecido, William poderia encontrar-se a uma longa distância e eu esperava que meu pai seguisse os seus próprios conselhos em continuar a sua vida. Permeava em minhas memórias enquanto o corpo se fundia com a alma, modelando um só ser, fazendo com que não houvesse duas metades, mas um todo.
Voltar dos mortos nunca esteve nos planos, na verdade morrer não estava também, mas havia acontecido e como tudo na minha vida eu encarei de frente. Eu não sentia nenhuma temperatura, apesar da dor, quando a transição completou-se passei a sentir muito frio, mas ainda não conseguia me mexer, estava em uma posição confortável, deitada sob uma almofada macia, como se um corpo sem vida precisasse de tanto aconchego, mas foi-me útil.
Depois de algum tempo deitada eu sentia a pele repuxar um pouco, a magia fazia o corpo pouco desgastado se regenerar, o que incluí o funcionamento de órgãos, tossi duas vezes, logo ficaria sem nenhum ar, por isso toquei a tampa de mármore que selava sepultura, ela temeu e o barulho ecoava por entre o hall de túmulos, muita magia era canalizada por ali, sendo mantida pela bruxa da família, o que até onde eu me lembrava se tratava de Prudence.
A pedra se moveu do lado, sussurrei em alívio algo que nem minha mente assimilou, o sentar causou uma tontura e o barulho da pedra se mexendo fez com que alguns guardas invadissem a cripta ainda trêmulos, assustados, viam sua rainha e não sabiam como reagir. — Me ajudem. — A voz rouca que não era usada a meses. Eles me retiraram da onde repousara e me colocaram sentada sob o mármore frio. — A família está no salão de jantar? — Um dos guardas apenas balançou a cabeça atônito.
Os pés nus tocavam o chão de pedra do castelo, eu caminhava com certa dificuldade, as pernas tremiam, seguindo-me uma orda de guardas, pelo menos dez ou doze, quando as portas do salão de jantar se abriram um a um o par de olhos me encararam atônitos, entre membros da família real e outros da corte, naquela ocasião até alguns de meus tios estavam lá, a cabeceira da mesa estava vazia, sem Dean o que era estranho, mas os outros sim, entre faces surpresas apenas dois sorrisos de William e Prudence. — Vocês não sabem o prazer que é estar de volta. — Dizia sorrindo e quase caindo ao chão, sendo amparada por um dos guardas.
AO SOAR DA TROMPETA
ESTAREMOS TODOS MORTOS!

As vestes esvoaçantes se faziam presente, em meio aos preparativos para a coroação de Rudolf as Ilhas do Sul aos poucos se enchiam de pessoas, a coroa sob minha cabeça era singela e os cabelos caíam em leves cachos pelos ombros, batia os dedos de forma sequencial olhando para a entrada, Hans teria poucos minutos para repassarmos o plano já que diferente da família real e junto com o resto do clero, ele deveria estar na capela da unção antes de todos, justamente por ser o patrono da Sacra Igreja do Sul, as sacerdotisas se recusaram a vir, não viam Rudolf com bons olhos, mas ainda sim minha irmã estaria lá, sentada conosco na segunda fileira observando a cerimônia.
— Você lembra qual é o plano, não é? — Perguntei olhando nos olhos claros de William. — Aliás, está extremamente lindo nessa armadura. — Sorri de canto colando os lábios aos dele, tinha conseguido infiltra-lo entre a guarda especial de Rudolf. — Não esqueça esse amuleto. — Ele olhou receoso, essa era uma parte do plano que eu tinha combinado com Hans especialmente, William já estava se expondo demais, não valia a pena deixa-lo sem nenhuma segurança.
Em meio ao hall da igreja fomos acompanhando e caminhando cada um para o seu lugar, Hans estava acompanhado de magistrados do clero, homens velhos demais que tinham ideias arcaicas, eu ainda lembrava dos olhares da minha coroação, com sorte aquilo seria rápido e Rudolf sairia daquela igreja da pior forma possível, enxotado como o trapaceiro que ele era, um idiota completo. Olhei a entrada da igreja, os guardas entravam escoltando o próximo herdeiro a ser ungido pelas forças divinas, dizem que o óleo queima os hereges, esperava que fosse verdade.
A guarda se dispersou, de longe eu acompanhava William com o olhar, ele e mais dois guardas estavam junto deles, o que eu não havia percebido até então era a presença daquela bruxa, a que vi conversando com meu irmão mais de uma vez, apenas Prudence estava representando as sacerdotisas, o que ela fazia lá? No badalar do sino nas mãos de Hans nós trocamos olhares, a unção sagrada iniciava e em uma sala menor atrás do altar o novo monarca era banhado em óleo divino, brega, arcaico e nojento, mas tudo bem.
Enquanto ouvia o discurso de Hans apertei o colar com força, sentia a firme transição de almas entre os corpos, havia partido para o de William pouco depois da terceira badalada e ele – como se o destino quisesse nos abençoar com sorte – era quem estava com Rudolf dentro da sala. — Vamos guarda, me ajude com o óleo. — Meu irmão exigiu em tom arrogante, eu tinha tanto nojo dele que mal podia descrever, os meus olhos vibravam em um verde vivo, era minha única chance.
Me aproximei dele, lhe agarrando em um só golpe pelo pescoço e forçando a ficar deitado dentro da banheira miúda, pouco depois o trouxe para superfície. — Seu desgraçado, SO... — O silenciei tapando-lhe a boca com força, aos poucos ele parou de se mexer e eu soltei os lábios, ele ainda respirava, pois eu sentia isso ao vento leve que tocava meu braço, ou o braço de William, mas deu pra entender. — Você vai ter só uma chance, abdique desse trono, confesse o seus crimes contra a coroa e viva com o pingo de dignidade que lhe resta morra e o mundo ainda saberá, você escolhe.
— Rachel ... — Ele riu se engasgando um pouco. — Acha que a palavra de uma bruxa bastarda que quase trouxe a ruína para o reino vai valer mais do que de um cavaleiro real que doou sua vida as Ilhas do Sul? Quem está te ajudando nisso, papai? — Ele riu de deboche da palavra de Hans, mesmo que eu o apertasse ele não perdia aquele maldito sorriso dos lábios, como se soubesse que o jogo estava ganho. — Não há provas físicas, você não te nada, está desesperada por esse trono que NUNCA foi seu?
Nessa hora eu o apertei com mais força, havia ódio em mim, muito ódio, também ouvia a voz de William gritando na minha cabeça, pedindo que parasse, até mesmo Hans, inconscientemente nos coloquei em uma espécie de conexão mental, eles não podiam fisicamente interromper aquilo, mas mentalmente tentavam. — Eu te dei uma última chance de permanecer ao meu la...ado, ser a minha mão, mas você preferiu se aliar ao homem que tirou todos os irmãos da frente para reinar ao seu irmão, o que eu te fiz? — Nessa hora ele pareceu inocente, eu vacilei por alguns segundos e lá estava o sorriso torpe de novo.
Ele sorria, pois já tinha vencido, mas eu não sabia disso ainda, ia saber em breve. — Hans estava certo em um ponto, ele disse que eu teria que fazer coisas pela coroa, essa coroa não sabe, mas você não pode tê-la, será nossa ruína. — Ele riu, ainda se engasgando com o óleo, mesmo que eu apertasse, ele só ria, como o psicopata que era. — Vocês já perderam, você e esse seu guarda quando pisaram aqui e acharam que podiam mudar as coisas como falsos heróis que são, Hans quando achou que ajudar a bastardinha ia redimí-lo se seus crimes, não vai Racheline, não vai mesmo! — Ele deu um último suspiro antes de seus olhos brilharem em um azul forte. — Vocês vão todos queimar, mas não se preocupe, eu cuidarei da Prudence por você, irmãzinha.
Meu corpo foi jogado para trás, em meio as sombras do canto da sala a bruxa que estava ao lado dele apareceu, me ricocheteando como se fosse nada, nessa hora a minha conexão com William se perdeu e eu estava de novo sentada no banco da igreja com Prudence ao meu lado. Hans cantarolava algo no altar e logo atrás dele surgiu Rudolf, a bruxa e os dois guardas carregando William preso. — Guardas e corte das Ilhas do Sul, essa bruxa meretriz, seu guarda e ... — Ele olhou com desgosto para Hans. — Meu pai, tentaram me matar, conspiraram contra essa coroa e como vocês sabem o sangue não está sob a coroa, os crimes contra o monarca ou futuro monarca são tratados como igual para todos os acusados, como rei em transição e gozando de meus poderes e direitos, declaro William Ratcliffe, Racheline Gothel e Hans Westergaard culpados, que Alcallena receba suas almas. — A voz dele ecoava por toda capela, os murmúrios ficaram cada vez mais altos e aos poucos guardas também seguraram Hans e eu, como faziam com William, tudo dera errado.
Entenda, Alcallena é um lugar de punição de corpo e alma, quase ninguém pisa na ilha da Caveira, menos ainda eram os que iam a prisão, independente de nossas posições reais nós fomos presos como animais, por crimes que não cometemos, jogados em celas uma do lado da outra, não importava, a sentença seria dada na manhã seguinte, mas Hans já adiantara a notícia sobre a forca ou fuzilamento, nós poderíamos escolher, não que um fosse melhor que o outro, nós três tínhamos direito a só uma visita, Will ficou calado, Hans queria implorar para Merdiana, mas seria em vão, eu o interrompi e pedi para chamar Prudence.
Minha irmã e eu vínhamos treinando algumas coisas a um tempo, começou como a forma de me aproximar dela, mas agora era nossa salvação, demorou algumas horas para ela finalmente aparecer, em um longo vestido preto que arrastava no chão, parecia mais pálida que o comum e ao tocar as grades eu me ergui, observando os seus olhos violeta. — Eu avisei do perigo do plano e olha como vocês estão. — A voz dela era calma, suspirava como se fosse desmontar. — Tem certeza disso? Talvez seja um lugar que vocês não queiram estar.
— Vai nos dar tempo Prudence, cuide da gente, está nas leis das llhas, você será nomeada nossa guardiã, cuidado principalmente com aquela bruxa. — Minha irmã balançou a cabeça positivamente me entregando um pequeno vidro com conteúdo lilás, eu o abri tomando um gole e depois passando para Hans e William que nos olhavam curiosos. — Prudence vai nos mandar pra outra dimensão das Ilhas do Sul, vamos ganhar tempo, pensar em um plano, nossos corpos ficarão aqui, pela lei das Ilhas prisioneiros em coma só podem ser executados em seis meses. — Passei a língua nos lábios ainda sentindo o gosto amargo da coisa. — É nossa única chance, pai. — Hans parecia mais receoso.
Após bebermos nos deitamos no chão, ouvia o cântico baixo de Prudence, cantarolava junto para facilitar a passagem, era como dormir, um longo e profundo sono, buscando algo perdido em outro lugar outra dimensão. Foi como sonhar, o peso, o escuro, tudo que Alcallena representava ficava longe, sabia que não poderíamos passar muito tempo naquele lugar, mas mesmo assim sabia como voltar, só voltaria com um plano, na hora certa ou seria perigoso desigualar uma nova dimensão. Quando abri os olhos estava em uma praia, William e Hans estavam por perto, já acordando, eram as Ilhas do Sul, eu conhecia a brisa, o cheiro, era e não era nossa casa ao mesmo tempo. — Vocês estão bem?

— Então ... O que houve? — A mais velha olhava os três corpos na cripta, tinha ido as pressas para Wonderland e ainda sentia o desgaste. — Quando eu te dei a ideia, não deveria ser por muito tempo, Prudence.
— Desculpa vovó, mas não era seguro acordar os três. — A bruxa jovem meneou a mão. — Eles estão definhando. — Sussurrou. — Principalmente William.
Meridiana estreitou os olhos encarando os três corpos, levou a mão ao rosto do jovem guarda e ele estava muito mais frio que Rachel e Hans, Meridiana crispou os lábios preocupada e repassando na cabeça tudo que tinha acontecido nos últimos tempos, já faziam cinco meses que eles estavam dormindo assim e isso não era nada bom, os ânimos de Rudolf não tinham diminuído.
Depois de Prudence ter colocado os três em uma espécie de coma, eles permaneceram sob os olhares dela nas Ilhas do Sul por várias semanas, até que Meridiana conseguiu usar a condição de William para levar os três para sua terra natal, Wonderland tinha mais recursos mágicos, as sacerdotisas ficaram particularmente ofendidas, mas a rainha mãe sabia muito bem como menear o conselho, ainda mais tendo dois de seus filhos com ela por lá.
— Sabe dizer o motivo? — A mais velha quesitonou sem tirar o olhar dos três.
— Magia ... — Prudence respondeu de pronto. — O corpo da Rachel aguentou melhor, já que ela é bruxa, Hans tem traços de magia...
— Bruxa vadia maldita ... — Meridiana cortou Prudence com seu resmungo. — Desde que Gothel entrou na vida dele os problemas só aumentaram.
— Essa magia salvou ele. — Prudence sussurou baixo para a avó. — Enfim, William é o mais mortal e sensível dos três, também não sei se poderemos mantê-lo ou protegê-lo por muito tempo, eles vão acordar bem fracos, mas papai e Rach são membros da família real, William não. O que o conselho decidiu?
Meridiana estava aérea a fala da neta, mas ainda sim ouvia a voz de Prudence distante, ela tentava juntar as partes que tinham passado na reunião e que as levava até ali, a mais velha sabia que as treze horas que passaram em reunião foram essenciais para que eles tivessem algum tipo de chance de sobreviver, mesmo que soubesse que as coisas tenderiam a piorar bastante.
A rainha mãe deu a volta nos corpos, parando entre William e Rachel que pareciam dormir, estavam dentro de uma espécie de cúpula mágica que a mais velha rompeu com a mão para tocar o rosto da neta que estava um pouco gelado, mas nada perto do namorado, Meridiana sabia do amor de Rachel por William, ela sentia isso em seus dedos, por isso lutou tanto por ele, em sua conversa breve com a sobrinha Mirana ela anotou o último pedido de George antes do divórcio, que seu irmão mais novo pudesse viver bem, a mais velha lembrava das lágrimas da rainha branca, perder o amor doía.
— Eles tem uma semana para acordar ou serão mortos em seu leito. — Uma decisão péssima, mas que Meridiana teve que arcar. — Caso acordados, Rachel e Hans perdem seus títulos reais, juntos a William eles estão exilados das Ilhas do Sul por seus crimes, que Rudolf cuidou para não serem poucos.
— Desgraçado. — Prudence xingou quase em tom inaudível. — Conversou com Iracebeth?
— Sim, a algum tempo. — Meridiana recolheu a mão e olhou a neta acordada. — Mas temo que as coisas estão complicadas em Crims, Mirana vai receber os três em Marmoreal.
— Será que é a melhor decisão? Com o divórcio recente, vovó?
— Mirana ama George, mais do que tudo, ajudar William vai ser bom para ela. — O olhar de Meridiana agora mirava o rapaz. — Então ... Você entrou na mente deles, o que fizeram nesses meses longe?
Prudence teve que se sentar para contar toda a história. A ida de Rachel, William e Hans para outra dimensão era complicada, Meridiana riu ao saber dos nomes e como Hans ficou encantado com Anna, o amor dele por ela era real e genuíno, mas sua ganância e ódio foram muito maiores e criaram muito mais problemas para todos eles. Conhecer Hanna e Mason foi o que começou a desencadear problemas, eles deveriam ficar longe de qualquer pessoa que tivesse associação com eles de alguma forma, mas foi impossível e seus corpos pagaram, Prudence ficou em pânico ao notar o primeiro definhar.
Depois de um tempo ela controlou isso, Rachel sentiu seus poderes diminuírem e ficar longe dos Westergaard ajudou, em sua versão como Mayla ela passou a ser a doce prima de Mason vagueando pelas Ilhas do Sul, por um tempo até esqueceu que estava naquela situação, mesmo que Hans a lembrasse a cada 5min disso, por poucos dias ela e William puderam só ser um casal, ela pode usar a magia como forma de cura como fazia quando pequena com a mãe, foi esse seu maior erro, praticar magia tornou-se um mártir.
Ela nem pode se despedir de Hanna, já que não a viu depois do casamento, Rachel foi presa por bruxaria em uma cela nas Ilhas do Sul, sendo sentenciada a um destino nada favorável, o tempo lá passava bem mais devagar, de cá havia uma Prudence preocupada, quando a sentença de forca saiu a mais jovem entrou em desespero, não dava para manter os três lá e foi quando Meridiana foi contactada para trazer todos de volta. De cá, no entanto, o conselho não era muito mais gentil, o exílio foi o melhor que a rainha mãe conseguiu.
— Está tudo pronto para a travessia. — A figura esguia surgiu na cripta cercada por dois guardas de branco, como seus cabelos. — Como estão?
— Bem na medida do possível, querida. — Meridiana respondeu a Mirana. — O Tempo concordou em ajudar?
— Majestade ... — Prudence cumprimentou com um aceno de cabeça.
— Não falei com ele. — Mirana respondeu Prudence com um sorriso. — Lily e Breanna estão com a comitiva em Marmoreal, vão ajudar com eles.
A Rainha Branca direcionava seu olhar a William de uma forma nada discreta, seus traços eram muito similares a George, o que causava certo desconforto, ela até mesmo chegou a estender a mão para tocar a dele, mas recuou, assistida em silêncio por Meridiana e Prudence.
— Podemos ir. Vai nos acompanhar, titia? — Mirana já tinha Prudence ao seu lado. — Aposto que sente saudades de Marmoreal.
— Tenho que retornar as Ilhas. — Depois de ter se casado, Meridiana quase nunca se ausentava muito do seu novo lar. — O conselho não pode ficar muito tempo sem mim.
— Mande lembranças a Martina e Snorre por mim. — A rainha branca sentia falta dos primos.
Os guardas levavam os corpos escoltados pelo olhar firme da Rainha Branca, Prudence ainda deu um último abraço na avó antes de partir junto a comitiva rumo a sua nova morada, tinha uma missão a cumprir.
A MÃO QUE PESA SOB O PASSADO

Aquilo havia acontecido a vários anos, mas ainda me atormentava como se fosse hoje, a visão, o toque, tudo era distante, mas próximo ao mesmo tempo.
A noite do recém retorno a Wonderland foi conturbada, visto que por mais que eu tentasse dormir aninhada a William, acordei três vezes com o mesmo som, a voz chamando o meu nome e me fazendo ficar inquieta, olhei para o lado e Will dormia calmamente, então me restringi apenas a me levantar devagar no que beirava as quatro da manhã para observar pela janela. A névoa baixa percorria Marmoreal, como se nuvens descessem do céu para tomarem posições estratégicas no tapete em tabuleiro.
Novamente a voz cantada, que ressoa.
O canto é melancólico e repete o meu nome como um chamado, tateando o parapeito da janela os olhos se fecharam, a figura etérea agora dançava a frente deles, com seus longos cabelos de ébano escorrendo pelos ombros, os olhos azuis tão fortes que reluziam como lâmpadas em meio a escuridão, a pele pálida que quase se misturava com a névoa e quando os olhos se abriram ela estava lá, a minha frente, com uma mão esticada para mim, da mesma forma que fazia nos sonhos, mas dessa vez na realidade.
Eu sempre vi aquela mulher, desde criança, só não sabia o real motivo, mas agora a sentindo tão de perto e vendo a minha magia esvair-se para ela com o seu simples toque, eu sabia quem era ela. — Vovó? — Perguntei inclinando a cabeça de lado, Gothel sempre falou que eu era como sua mãe e que Katherine era como suas irmãs, uma mistura delas e que um dia iríamos pagar por isso, como se fosse um crime.
— A hora chegou criança, pague o preço certo por perfurar o cosmos dimensional, por quebrar a passagem. — A voz dela era calma, um suspiro a fez recolher a mão em certo desagrado, inclinei-me para frente, sentindo o vento bater nos cabelos que sempre foram cultivados no tamanho máximo dos ombros, mas agora estavam escorrendo por mais do que isso. — O peço por caminhar entre os vivos tendo sentido o hálito dos mortos é caro, o Senhor do Submundo não te alertou que essa magia não te inibe do preço de mudar de dimensão? Oh Hades ... — Ela piscou tão lentamente que mesmo eu não a entendia ao certo quais eram seus temores.
Manea era minha avó materna, uma fada ambiciosa que sonhou ter mais do que poderia, expulsa dos Moors por sacrificar outra fada, encontrou abrigo na Floresta dos Mortos, onde conheceu e se apaixonou pelo Deus do Submundo, mas acontece que o coração de Hades pertencia a Perséfone na mesma intensidade que a lealdade de Manea a ele, como recompensa ele a transformou na sua emissária em terra, uma delas, dando a ela muitos poderes. A lenda da Senhora dos Mortos vagueou por muitos cantos, principalmente por Corona, que ficava nos arredores da Floresta dos Mortos, ela tinha sido uma pessoa cruel e de acordo com a minha mãe ela tinha morrido, mas era sábio que bruxas poderosas não morrem, somem e voltam.
— O véu dimensional é poderoso, você ativou a minha presença quando mexeu com ele e agora irá pagar por isso... — Ah pronto, agora serei morta pela minha vó fantasma na minha frente. Os olhos fecharam com medo, várias orações nunca antes feitas, mas decoradas, foram clamadas silenciosamente, o toque dela foi a única coisa que senti, gélido em minha testa, ao abrir os olhos antes fechados eu sentia meu corpo tremer, não pelo frio, mas pela luz que ela emanava. No meu braço direito uma tatuagem de rosa se formou, seu caule tinha vários espinhos, eu olhei pra ela meio confusa. — Doze tarefas para realinhar o seu cosmos pessoal, Rachel, o primeiro deles é encontrar o exilado inocente, ele te guiará aos outros...
Meus olhos tremeram encarando a figura de Manea movendo-se lentamente a minha frente. — E se eu não conseguir? — Havia medo guiando-se por minhas veias, falhar com o cosmos nunca era uma boa. A mulher mais velha guiou a mão até minha face, mantendo-se séria. — A magia vai esvair-se a cada segundo, até que o receptáculo vire pó e do pó não volte. — Engoli seco vendo a figura dela se dissipar na névoa noturna, não era mais um simples devaneio.
PARA A FAMÍLIA O SANGUE E A HONRA

A viagem até a fria Paris foi rápida, lembro-me de passá-la acordada enquanto fazia carinho nos cabelos de William, ele adormeceu por pouco, a barba estava crescendo e os cabelos começavam a formar cachos lentos, era uma aparência diferente da sempre alinhada que cultivava na corte, aquele momento tinha ficado para trás, junto com quaisquer lembrança que tínhamos de nossas vidas passadas, temos que ser francos, a vida real nos parece tão longe, mas ainda vive tão perto, no exílio éramos apenas nós, não nossos possíveis títulos e talvez vivêssemos bem assim, se vez ou outra os problemas atrelados ao passado não nos seguissem.
Encontramos com Dalila e Gideon, como havia prometido que faria ao telefone, ao casal Gold pedi dois favores, a ele uma magia de localização, já que a minha própria vinha me sabotando, a ela uma guia, Dalila conhecia Paris como sua mão e soube me ajudar a chegar até a biblioteca em um canto afastado da cidade, entre ruelas vazias, era sábio que Jorah não se esconderia em um lugar de fácil acesso, foi ali que eu me despedi da Sra. Gold, não queria colocar Dalila em algum eminente perigo, só pedi que avisasse a Will que eu não demoraria, deixei-o a companhia de Gideon, Will precisava mesmo de companhias que não fossem a minha ou de pessoas que vivessem cercadas de compromissos e problemas reais, um tempo fora da nossa atmosfera de caos o faria bem.
As prateleiras empoeiradas escondiam algumas respostas, muitas que eu acreditava piamente que se encaixariam em minhas dúvidas, a magia que me guiara até ali se dissipou no momento em que adentrei, mas os meus olhos brilharam em um verde vivo a sua presença, um homem de meia idade com um grande livro empoeirado em mãos, o bateu com mediana força quando me encarou. — Jorah ... — A minha voz saiu calma, reconheceria aquele rosto dos quadros da família real, por mais que exilado fosse, ainda estava lá. — Rachel ... Pelos deuses, o tempo passou sem eu ao menos notar, esperava alguém na casa dos 20, não dos 30.— Não tão gentil com as palavras como eu pensava, mas tive que concordar com a cabeça.
Já havia embarcado para Paris com aquela forma, como eu já temia a minha magia voltava a ser volátil e em uma tentativa boba e mudar os cabelos eu acabei tomando essa forma e não conseguindo retornar, parte de mim temia o que aconteceria se tornasse a insistir em tal feito, o que irritava era justamente por ser um encantamento simples, quando mais jovem - e não só de aparência - eu mudava esse tipo de coisa em um estalar de dedos, agora vivo instável. — Problemas com a magia, por isso estou aqui, Manea me mandou. — Não sei se a menção a minha avó morta ajudaria, mas ele bateu o livro sobre a bancada a sua esquerda, não sabia se de raiva ou outra coisa, mas ergueu-se uma quantidade considerável de poeira. — Ela disse o motivo? — Ponderei com a cabeça, estranhando principalmente o fato dele não ter questionado sobre ela. — Encontre o exilado inocente, ela disse. Só podia ser você. — Então ele riu, agora cruzando os braços.
Como eu já devo ter mencionado em uma outra ocasião, as relações familiares de Westergaards são complicadas, o exílio dele, o vínculo rompido do meu tio Bogart e sem falar as mortes estranhas. — Eu acredito em você, na sua inocência. Eu li suas cartas com a Odhara e eu sei como eles te olhavam, eu só nunca entendi o porque você foi parar lá, de onde você veio, só foi oportuno que fosse sua a culpa para te tirarem dali. — Ele ficava calado, me olhando como se esperasse ouvir da boca de outra pessoa uma versão da história que o colocasse como inocente. — Porque você tem magia e eles temem ela, por isso a casa real mantém uma relação próxima com as sacerdotisas, para ter controle e você era algo que eles não podiam controlar, mas a principal pergunta do que eu quero saber é ... Se não foi você, quem foi? — Agora havia silêncio nas duas partes, do tipo constrangedor que ninguém quer entregar os pontos.
Jorah respirou fundo, ainda meio inerte a minha pergunta, abriu os lábios levemente avermelhados, como se ele usasse um batom róseo. — Você sabe a resposta, não pergunte como se fosse o contrário. Ele foi parte importante da ruína dessa família. Você deveria tê-lo deixado morto, aliás. — Era o que eu mais temia, que mais alguém tivesse a mesma certeza que eu tinha em mim fazia tempo, só não queria a confirmação vinda de alguém que tinha uma relação convicta com a situação. — Eu tinha alguma esperança em algum tipo de mal maior, ele é o meu pai, não é? Se ele e minha mãe são maus, eu também devo ser em algum ponto. — Ele deu aquele riso irônico como se visse em mim o reflexo da garota fraca em um corpo mais velho e depois deu a volta no balcão abrindo de novo o seu livro.
O olhar dele percorria cada palavra nas páginas, como se buscasse por algo e depois tocou um ponto em específico. — Não venha com esse papo de pobre coitada com destino traçado, eu não tenho tempo, esse tipo de auto piedade de exílio já foi superado por mim a tempos. — Ele podia até não ser um Westergaard de sangue, mas o convívio apodrecia aos poucos o que havia no interior de qualquer um, ainda mais vivendo em meio a aquela família. — Eu sei o que você está pensando olhando assim pra mim, como eu fui parar lá naquela ilha, aposto que a história que contam é a cor de rosa e de como os reis se afeiçoaram pelo garoto ruivinho na visita a Vardowen, só que não é bem assim, reis e rainhas não são como em contos de fadas, Rachel, me permite? — A mão estendia-se em minha direção, como um convite e meus olhos tremulavam a olhando.
O suspiro preencheu o ambiente escapando livre de meus lábios, não havia calma e sim uma aparente apreensão de uma jovem em descontrole. Meu corpo encolheu-se a medida em que o convite era claramente recusado, Jorah percebeu isso, já que riu anasalado fechando de leve os dedos. — Manea me mandou aqui para provar a sua inocência, no que isso ajuda? — Agora ele revirava os olhos em pura impaciência, enchendo os pulmões e soltando pela boca como se buscasse controle para não jogar-me porta a fora usando a magia que ambos sabíamos que ele tinha. — Você ainda não percebeu? Isso é muito maior do que eu ou você, minha cara. Uma alma é muito pouco pelo que você pode alcançar, pelo que pode fazer. Sua avó te mandou aqui não para me salvar, mas para te dar conhecimento, conhecimento é poder, vale mais que qualquer magia. — Novamente a mão se estendia a mim, dessa vez apoiada em um sorriso de canto, algo que misturava convicção, anseio e fúria. Lia Jorah como uma poesia nórdica, complexa e aberta ao mesmo tempo.
Havia receio em cada célula do meu ser, havia medo do que mais saberia, Westergaards guardavam segredos a sete chaves, a oito talvez, estaria a minha mente pronta para descobrir tudo? Munida não só de coragem, mas de curiosidade, medo e também receio, toquei a mão dele, que emanava uma energia amarela como a dos seus olhos. Como um choque nossas magias entraram em curto, ele era mais velho, mas experiente e com isso muito mais forte que eu, Jorah tinha o controle, eu tinha meus medos, não foi difícil para ele subjulgar todas às travas mentais e morais que eu tinha e enfiar em mim todas às lembranças coletadas em anos de vivência.
Apesar de sentir que ainda estava lá de pé, eu via diante de meus olhos figuras reias, até mesmo o vento frio da escura e opaca Vardowen poderia balançar de leve os meus cabelos. Diante de uma sala de jantar eu via dois casais de monarcas, fui obrigada a estudar todos os aliados das Ilhas do Sul, não importava quantos anos se passassem, a figura da rainha Leah e do rei Stephen, assim como dos meus avós rei Viktor e rainha Meridiana, não passariam a frente dos meus olhos sem que eu os reconhecesse, mesmo em juventude.
A voz de Jorah ecooava na minha cabeça, mas em uma forma diferente, não como se ele falasse em alto e bom tom, mas era como se o homem encaixasse de forma exata cada nome, cada local e tratado construindo uma narrativa sólida em minha mente. Era óbvio a frente de meus olhos que os monarcas de Vardowen estavam extremamente furiosos com o que houve com sua primogênita Aurora, a rainha tinha dado a luz a segunda filha, Lizandra um ano após dar à luz a Aurora praticamente, ou um pouco mais. Os reis precisavam garantir que o futuro de sua corte prosperasse, mesmo que sua primeira filha não vingasse, o que eles esperassem que acontecesse, ela ainda estava de casamento marcado com um príncipe de um reino vizinho, Ulstead. Já a segunda filha não estava só de casamento marcado desde o berço com o herdeiro das Ilhas do Sul, ela também tomaria o reino como sua morada, vivendo longe dos pais, para garantir que não ocorresse com Lizandra o que houve com Aurora.
Às cenas mudavam, a imagem das Ilhas do Sul surgiam à frente dos olhos, um pouco diferente, mas ainda aquele lugar que em meio a cores e cânticos escondia mentiras. A vida de Jorah nunca foi fácil, a frente de todos era tratado e cobrado como um membro da família real, às costas sofria com a lembrança constante de que não era e nem nunca seria um deles, tudo isso tentando lidar com a sua magia volátil, eu me reconhecia nele naquele momento. A Lizandra rosas, sorrisos e bom gosto, pelo menos até aquela noite em que tudo começou a dar errado, Klaus, seus filhos e sua esposa grávida foram assassinados a sangue frio, às lembranças mudavam rapidamente e de forma fugaz, via-se o jovem Hans consolado pela mãe, novamente chorando por Anna e por seus pecados. Às imagens tremulavam e agora Jorah era exilado, o que para ele deveria ser uma coisa boa, o conselho queria sua morte, Meridiana conseguiu que aquele que via como filho permanecesse vivo, deveria ser bom não?
Naquele instante eu fui jogada para fora das lembranças, só não decai ao chão pois fui segurada por Jorah, com seus olhos vibrantes em amarelo, enquanto os meus brilhavam em um verde vivo, a magia respondia a tudo que via e o arrepio percorrido pelo corpo era uma sensação mórbida e estranha. — Espero que você tenha entendido tudo que viu. Nem o pior dos males que cair sob às Ilhas do Sul vai ser maior que aquilo que corrompe e aos poucos acaba com todos eles. — Ele e eu sabíamos a resposta para aquele enigma, mas deixei que Jorah respondesse enquanto eu tremia ao me afastar. — A família. Westergaards vem colocando seu sangue acima de tudo desde o início dos tempos, teoricamente isso deveria ser bom, mas criou um ciclo vicioso de morte e destruição, se você não sair dele agora, vai acabar morrendo vítima dele também. Klaus, Mathias, Odhara, eu … Fomos só efeitos colaterais. — A voz percorria o ambiente calmamente de forma amena, como se Jorah já estivesse acostumado a suas dores. — Eles são o meu sangue, isso é … Injusto. A vovó me protegeu, Prudence me deixou viva, como eu posso largar às duas lá? — A impaciência voltou a seus olhos, junto com aquele riso de sarcasmo que eu já tinha identificado.
— Você não entendeu até agora? Meridiana é parte disso, ela sabia do Hans, ela escolheu proteger o seu pai de cada crime, escolheu mentir sobre a morte do Mathias, influenciou a Prudence a se tornar uma sacerdotisa. Ela vai te dizer que fez pela família o que precisava para sobreviver, mas aí que está Rachel, sobreviver a que preço? Nunca se perguntou porque às Ilhas do Sul tem tantos aliados? — O livro dele tremeu, a mão de Jorah repousou sobre o mesmo, fazendo-o aquietar, os olhos amarelos voltaram ao tom normal e ele suspirou, às leves rugas surgiam no rosto, ele estava cansado, se via em sua face. — Não vai demorar para que a verdade venha à tona, você acha que os Moors e Vardowen vão deixar baixo um sequestro e a morte de sua princesa? Antes de se virarem um contra o outro eles vão vir com tudo contra o seu lar, não vai existir Ilhas do Sul, bom … Há uma forma, mas você teria que tirar Rudolf do caminho, alçar ao trono e continuar o ciclo de mortes em nome da família, se manchar como eles. — Para Jorah era fácil dizer, ele só precisava assistir agora, possivelmente forte o suficiente para só olhar, depois de anos de sofrimento.
— Porque você não se vingou? — Essa parecia ser a parte que martelava na minha cabeça, ele tinha às oportunidades, porque não fazê-los? — Vê-los se destruir em suas próprias mentiras é muito melhor. Bom, agora você sabe a verdade, sobre como seu pai sucumbiu às pressões e ganância pela coroa, como sua avó escondeu sobre morte e sangue para manter a integridade da família real intacta ao povo, como seus tios mentiram em nome de status e claro, como morreram em prol do sobrenome. Ninguém é insubstituível ou maior que a família, nem você. Se o ciclo não parar outros vão continuar a entrar na teia, a morrer para um leão sobreviver, quantos mais aliados eles vão sacrificar? — Ele meneou a mão, jogando-me porta a fora, quando me ergui havia uma parede no beco, não uma porta, era muita coisa, muita história. Por Deus … Que inferno.
QUANDO ALMA E CORPO SE DECOMPÕE
Tudo na vida é sobre equilíbrio, sobre encontrar o ponto central, algo que não te jogue muito para um lado ou outro e quando se falava de magia isso era muito mais linear, muito mais perigoso. O quarteto procurava pelo ponto central de Marmoreal, como eles mesmo tinham levantado em hipóteses havia um pátio, aquela era a primeira pista para que todo o caos em Wonderland parasse, para que a Cronosfera fosse realmente finalizada e voltasse ao seu normal.
Ao unirem-se em torno da pequena construção ao meio do pátio podia-se ver as faíscas mágicas, os quatro olharam as mesmas movendo-se em forma circular, Rachel podia sentir a magia da forma que os outros três não podiam, graças a sua natureza bruxa, ela segurou a mão de William e do outro lado a do irmão Rudolf. — Segura a mão do papai, se ele soltar, você empurra ele. — A garota pediu baixo ao irmão e nos segundos seguintes os quatro foram sugados pelas faíscas.
O local onde repousaram era preenchido por uma nuvem de dourado, que banhava as paredes do chão ao teto. As enormes portas abertas, na verdade escancaradas davam uma visão da Cronosfera em sua mais plena confusão. Metade dela estava presa por gelo, confirmando os gostos de que Mirana atentou contra o Tempo, esse que estava caído no chão. — Rudolf e William, ajudem o guardião do Tempo e levem-no para mais distante da Cronosfera. — Rachel assinalou com a mão sentindo o vento gelado tocar seu rosto. — Pai, você vem comigo. — Então eles seguiram em frente, se dividindo entre as tarefas.
Hans carregava em suas mãos uma espada, enquanto Rachel só precisava da sua magia, ela olhou por cima do ombro vendo o irmão e o amado levarem o Tempo para longe da Cronosfera, eles estariam a salvo a medida que se afastassem também. — A Cronosfera é volátil, vou escalar o painel e você fica aqui. Quando eu reencaixar a orbe as coisas devem voltar ao normal, tente eliminar o gelo para facilitar o acesso e apertar os botões. — A bruxa nunca confiou muito no pai, mas tentava em pequenos atos criar laços com Hans, a troca de olhares permaneceu por alguns segundos, antes uma última olhada no trio que se afastava, seguros. O painel era complexo, mas pior seria deixar a Cronosfera daquele jeito.
Rachel escalou o pedestal onde a Cronosfera ficava, parecia que quanto mais próximo, mas frio se tornava, ao encarar o objeto vibrante ela ficou hipnotizada por alguns momentos, vislumbrando a sua vida a sua frente como se estivesse no juízo final, pronta para morrer e deixar esse mundo, fora tirada de seus devaneios quando a Cronosfera chiou e a voz de Hans perguntou se ela estava bem. — Sim, vamos terminar logo com isso. — As duas mãos afundaram-se em torno da Cronofera, revestidas de magia ela sentia as mãos queimando, já que não era digna de tocar um objeto daquele.
O grito permeou pelo salão, o longo não chamou a atenção dos presentes embebido em um tom grosso, a voz não era de Rachel, mas do Guardião do Tempo que amparado por William e Rudolf via a figura da jovem bruxa tentar erroneamente consertar os estragos causados por Mirana of Marmoreal, mas ela era indigna, a Cronosfera iria consumir sua magia antes que ela pudesse fazer algo útil e depois não iria sobrar nada de Rachel. No susto ela deixou que o objeto brilhosos escapasse de seus dedos e assim os quatro homens em solo correram.
O primeiro foi William, com as pernas maiores em seus quase 2m de comprimento avançou em passos largos na direção do objeto, temendo que chocasse contra o chão. Em seguida partiu Rudolf, seus olhos tremulavam e ele agarrou o futuro cunhado pelo dorso ao perceber segundos antes o olhar da irmã, assim como ele William era apenas um mortal, iria ser consumido, então o futuro consorte da Rainha Lily derrubou o guarda no chão para evitar que Will corresse para a morte certa.
O Tempo não se importava com eles, mas sem a Cronosfera o caos universal estaria completo, não só nessa dimensão, mas em todas as outras, a sua armadura caía aos pedaços e seu corpo machucado impediu que ele fosse até o objeto, só parou próximo com os olhos arrregalados ao ver a Cronosfera ser amparada pelas mãos de Príncipe Hans. O homem de tantos pecados viu a suas mãos todos eles, naqueles poucos segundos ele sentiu a dor que causou em vida, para os filhos, para aqueles que nem eram seus parentes, segundos depois ele simplesmente explodiu em uma nuvem dourada a frente de todos.
Os três que não conheciam a Cronosfera ficaram sem entender, Rachel saltou do pedestal ao chão tremendo de susto, Will e Rudolf ainda estavam onde caíram olhando sem entender e o Tempo agarrou o objeto dourado antes que um deles pudesse fazer algo que os matasse. — Meu pai ... Ele... — Rachel tocava o ar a sua volta tentando entender, o Tempo passou por ela atônita e devolveu o objeto a seu lugar, todos puderam sentir a energia, o caos em Wonderland em breve iriam voltar ao normal.
— Vocês não deveriam ter vindo aqui, nenhum de vocês é digno. — O guardião em sua armadura dourada semi destruída virou aos três, Will e Rudolf já haviam se aproximado da bruxa que agora estava de pé sob o chão dourado. — Sei o que vocês pensam agora, não ele não morreu. Ele foi obliterado. — Tempo passou os dedos sob a bancada apertando alguns botões para regular o funcionamento da Cronosfera. — Tudo bem, Rach você pode trazer ele de volta, você fez isso uma vez com a sua magia. — Rudolf foi quem insistiu e o Tempo mesmo riu.
O Guardião não os queria ali, não deveria haver ninguém além dele naquele local. — Não pode, obliteração destrói a sua alma, você pode reconstruir o corpo, a alma não. Ele nunca mais vai voltar, aceitem. — Tempo foi categórico enquanto Rachel abraçava William totalmente em prantos, as lágrimas da bruxa molhavam seu rosto avermelhado. — Recomendo também que pare de interferir no equilíbrio do cosmos, garota. Ou a próxima a ser obliterada será você, isso é um conselho, já está na metade do caminho. — O Tempo passou a língua nos lábios abanando a mão. — Agora vão embora.
Os três ainda estavam atônitos, a ida foi muito rápida, as perdas em uma guerra curta foram muitas e eles não tinham nem um corpo para entregar a Meridiana, dos doze filhos esse era o terceiro que ela perdia.
ENQUANTO COBRAS RASTEJAM ENTRE OS LEÕES

Rudolf ficou três horas em uma chamada de vídeo com o conselho das Ilhas do Sul, por mim ele teria ido pessoalmente, jogado por um portal rumo a casa que ele queria tanto fugir, mas eu entendia meu irmão mais novo de não querer pisar no nosso reino, se eu pudesse eu mesma nem voltaria, não sentenciaria William a voltar comigo, mas o guarda insistiu, ele era o meu segurança particular pelo que ele mesmo repetiu 3 vezes, eu apenas concordei com a cabeça e não discuti.
O meu exílio foi revogado, assim como o de Will e o do meu pai, mesmo que o de Hans fosse post mortem, ele poderia ser homenageado, dessa vez sem chance de volta, no hall da família Westergaard nas Ilhas do Sul. Quando passei pelo portal o frio me tomou, lá o ar era muito diferente, estava chovendo como sempre e os guardas cercavam nossas duas figuras no jardim, nós já éramos esperados por Meridiana, na ausência de Rudolf a rainha mãe era quem guiava o reino. Falando no meu irmão, ele não era visto pelas costas por sua abdicação, o fato de se casar com um de nossos antigos aliados e fazer valer um acordo antigo deu a ele a carta branca em meio a nosso livro de regras.
O meu banho demorou mais do que o normal, afundada até o pescoço na banheira com sais de banho e água morna me coloquei a pensar, a reunião com o conselho das Ilhas do Sul aconteceria após o jantar, esse então foi servido logo quando o sol se punha, o que explicava que a reunião não teria hora para acabar, o que me causou aquele desconforto no pescoço, do qual eu levava a mão a cada seis minutos e meio, como um tique estranho. Quando entrei a sala do conselho eu vi todos os presentes se erguendo, apesar de só quatro pessoas serem importantes ali, haviam outros sete homens que o compunham, na ponta contrária a mesa a líder do conselho, a minha avó.
— É um prazer tê-la de volta, querida. — Ela se sentou e todos nós a acompanhamos, William estava de pé a minha direita. — Seu guarda pode esperar lá fora, as reuniões do Conselho Gestor são particulares.
— Sir. William é meu conselheiro agora também. — Respondi sem mudar o semblante sério. — Ele fica. Prossiga.
Meridiana estreitou os olhos, respirou fundo e percebeu naquele momento que eu não era mais a garotinha acuada que ela acreditou que um dia eu fosse, era bom que ela lembrasse que eu ainda estava no seu baralho de aliados e que ela não ia gostar de ser deportada de volta para Wonderland com uma mão a frente e outra atrás devido a seus crimes, ela ia odiar bastardos mais do que já odeia, ou pelo menos finge muito bem.
Os membros do conselho, no entanto, não eram muito mais confortáveis que ela, meus tios Snorre e Martina estavam ambos a direita e a esquerda de Meridiana, obviamente para dar apoio moral e tão culpados quanto ela, toda essa família está manchada de sangue até o topo, não me espanta que meus irmãos fugiram assim que puderam. A mais velha ao outro lado da mesa piscou três vezes mirando os papeis a sua frente, para seguir o relatório.
— Estamos aqui para audiência de moção de títulos da nova rainha e ...
— Rainha? — Um dos membros do conselho a interrompeu bruscamente. — Onde está a Princesa Prudence? Ela é a próxima na linha de sucessão.
— Prudence está em Endora e receio que não a veremos tão cedo. — Respondi passando a língua nos lábios.
— Então o título sai da casa Westergaard por falta de herdeiros. — O homem de meia idade exaltou-se com meio sorriso. — Os próximos na linha sucessória pertencem a casa de Hogebak, primos do rei Viktor, que deus o tenha.
— Você não contou a eles? — O sorriso dessa vez desenhou-se na minha face enquanto me apoiei na mesa a minha frente, os olhos miraram minha avó e depois ao homem. — Eu vou ser sua rainha, bobinho. Você não achou que não havia mais felinos na toca dos leões, não é?
Todos os pares de olhos foram em Meridiana, haviam apenas dois que mudavam a rota, minha avó me encarava, Martina olhava as próprias mãos um pouco afoita, a mais velha na ponta contrária a mesa tirou um lenço de entre meio a suas vestes e limpou o rosto um pouco atônita, tentando escolher bem as palavras que usaria com aqueles velhos autoritários logo em seguida, eu ergui a sobrancelha devagar e movi a cabeça para a esquerda, a instigando a andar logo.
— A Princesa Rachel esteve mais de um ano morta e perdeu o direito de requerer seu título, que aliás nem deveria ser dela ou do Príncipe Dean. O Príncipe Hans só se casou com Drizella Tremaine e Red Rose Blanchard, isso faz dos dois primeiros bastardos. — Sentia que aquele maldito iria explodir a qualquer hora. — Sem contar seu recente exílio por atentar contra essa coroa.
Meus olhos subiram em William, os dedos de unhas curtas batucavam de leve a mesa de madeira escura enquanto aquele homem fazia tudo para que eu não pudesse voltar a minha posição, Meridiana concordaria se estivesse em outra ocasião, mas ela sabia que não era esperto sair do meu lado agora.
O Conselho Gestor não gostava de mim, apesar de apenas um falar os outros balançavam a cabeça como zumbis concordando com o que aquele idiota dizia, tudo o que Jorah falou em nossa conversa em Paris fazia sentido, aquela família estava fadada a queda e seria pelas mãos de um Westergaard, mas se eu queria mudar algo, não seria deixando na mão de outro, ia permanecer nas minhas.
— Sabe quantos reis e rainhas não Westergaard tem na história desse reino? — Questionei mirando os olhos no homem. — Dois. Se você comparar as datas, foram justamente no ano da Revolta de Corvant que quase acabou com a monarquia, salvo por um Westergaard e na Grande Praga que dizimou um terço da população das Ilhas do Sul em menos de um ano, negligência depois do nosso aviso a um rei tolo.
— Vai dizer agora que tem algum tipo de maldição? — A risada seca dele seria melhor se não fosse fumante ativo, mas os outros também riram encobrindo sua rouquidão. — Típico de bruxa, tudo acha que tem misticismo.
Todos eles tiram agora, menos o trio do outro lado da mesa, Snorre me olhava com nojo, Martina encarava Meridiana em busca de alguma resposta e a Rainha-Mãe pedia com o olhar que eu não cometesse alguma loucura, mas os pedidos dela foram ignorados.
— Não, significa que Westergaards afundaram tanto esse reino que ele não sobrevive sem eles. — Suspirei molhando os lábios com o passar de língua. — Deixe-me refrescar vossa memória.
Em meio as minhas palavras eles todos calaram para ouvir a história, essa que começava com um pai metódico e cansado, Viktor tinha só uma irmã e passou a vida temendo que a coroa escapasse de suas mãos por isso tinha tantos filhos, mas obviamente não dava atenção a todos.
Orgulhosa e ressentida, Meridiana mentia bem, aprendeu isso em casa e aperfeiçoou no casamento. Era ligada a seu caçula Hans e faria de tudo para que ele tivesse um futuro melhor do que normalmente teria como só mais um nobre qualquer.
Ela ajeitou Anna para seu filho e depois tentou fazer com que os casamentos com Drizella e Red Rose vingassem, só que a pressão de Meridiana em Hans fez com que ela desenvolvesse ansiedade, depressão, uma leve inclinação a bebida e a dificuldade de fazer laços, a mãe que quis tudo pro filho o destruiu aos poucos.
No caminho ao topo, ao trono que a achava que o filho poderia ter, foi tirando da frente todos os outros que tiveram a sorte de nascer antes, as filhas rei ótimos casamentos com herdeiros de reinos próximos ou cortes boas, já os rapazes não tiveram tanta sorte.
Hans envenenou a sangue frio Klaus, enquanto já se envolvia com Gothel, a bruxa que a mãe odiava. Afundou Mathias em seus próprios traumas, o irmão sumiu e depois foi dado como morto, sabendo do que houve Bogart não teve escolha se não ir embora, ele se recusou a ficar em uma casa onde a família que dizia fazer tudo pelo sangue, simplesmente a destruía em nome de poder.
Goran, ou Jorah, nunca foi um problema, adotado ele estava fora da linha de sucessão, mas ainda sim seria de uso posterior. Snorre era e é cúmplice da mãe, abdicou sem pensar duas vezes para obter o maior posto que conseguiu, as Ilhas do Sul não tinham uma monarquia absolutista, do que adiantava ser rei e não ter tanto poder? Ele preferiu o conselho. Já Josef, esperto como só ele era, ouviu a irmã Martina e preferiu a vida de diplomata.
O que Meridiana não tirou da frente, ela matou em nome de Hans, mas enganada estava ela ao achar que ninguém saberia, que ninguém nunca faria nada ...
— E essa é a nossa história de terror. — O conselho ficou calado, da bondade estampada de Meridiana, nada sobrara.
— Eu fiz isso por amor a nossa família! — Ela tomou a frente. — Hans teria sido um bom rei se Gothel não tivesse o tirado do caminho.
— Ela só fez o que você também fez. — Me ergi devagar. — Ela abusou dos traumas dele, das fraquezas psicológicas de uma pessoa que foi manipulada a vida inteira. Mas agora isso não importa.
— Como não? — O grito histérico de um dos membros da mesa se fez presente.
William o fuzilou com os olhos de tal maneira que ele se sentou devagar e abaixou os olhos, pelo menos isso eu poderia dizer que ninguém fazia melhor que meu guarda. Mesmo que fosse apenas humano, William tinha uma aura intimidadora, posso dizer que um pouco sexy também.
— Temos problemas piores. Endora e Valençay romperam a aliança, possivelmente a Princesa Prudence apoia isso e ficará contra nós. — Voltei a me sentar. — Jorah garantiu que Vardowen e os Moors saberão que esse reino além de matar a Rainha Lizandra, que também era princesa de Vardowen, sequestraram e foram coniventes com o cárcere, sem falar de bullying, contra Jorah Faery que é nada menos do irmão de Maleficent Faery.
O silêncio permeou do jeito que eu mais gostava, tão firme e solene que ouvia-se o bater de corações.
— A Dinamarca não é um aliado bélico e por isso não vai colocar nenhum soldado para lutar ao nosso lado. Wonderland está enfrentando um pós guerra com a perda de duas rainhas e não está apto a nos ajudar. Duvido muito que Ulstead fique do nosso lado quando souber o que aconteceu. — Os olhos correram pela mesa lembrando dos aliados que sobraram. — Vamos ser dizimados, Mulzic se quer vai querer se meter nessa merda.
O silêncio ainda permeava na sala, como se eles esperassem uma solução milagrosa da minha parte.
— Sem contar que o parágrafo 6, sub seção 347.8 diz que sacrifício tem peso sob a decisão de retirar o título de um membro real. Basicamente, meu sacrifício pelo bem do reino garante que a coroa ainda é minha. — Dedilhei a mesa levemente. — Ou vocês podem fazer isso sem mim.
— VIDA LONGA A RAINHA. — Um coro de vozes clamou em meio ao barulho de cadeiras arrastando.
Quando uma cobra rasteja, ela passa despercebida pelos leões.
QUANDO O VINHO, SE TORNA ÁGUA

É como dizem, toda jornada tem um fim e esse foi o decair da última rainha das Ilhas dos Mares do Sul, não poderia terminar de outra maneira senão entre os dedos de um Westergaard, logo eles que tanto lapidaram e desgastaram esse lugar, aqueles que colocaram a família sob qualquer outra coisa. A família os uniu e a família os derrubou, um a um, com o passar de gerações, culminando no que aconteceu naquela noite.
Desde a Guerra das Irmãs em Wonderland a rainha Rachel não era a mesma, perder o pai, mesmo que sua relação não fosse exatamente a mais amorosa, causou nela um sentimento de estranheza, Rachel entendia Hans, sabia que em meio aos crimes do pai ele tinha sido muito mais vítima do processo que culpado, Hans havia sido manipulado pela mãe e com isso a relação de conselho e monarca se tornou cada vez mais distante. Racheline se recusou a ter uma sacerdotisa como sua companhia, o que quebrou finalmente o fio que unia o místico a coroa, afastando Alfella do trono. O que ninguém sabia é que antes de ir embora de Marmoreal, a jovem rainha e seu irmão mais novo tiveram uma longa conversa.
— Isso não vai parar Ruddy. — A noite havia caído, em meio ao luto por perderem Mirana e Iracebeth a dupla conversava sobre um reino em que ainda precisariam lidar. — Minha vida vai se tornar um inferno até o dia em que eu morrer de fato.
— Você vai conseguir lidar com eles, confio em você. — A mão de Rudolf pesou sob o ombro de Rachel. — Tens um pé fora dessa família, isso é importante.
— Eles não vão parar até que o povo pague. — Os fios escuros foram banhados pelos dedos finos. — Não posso abdicar, os próximos na linha de sucessão não são Westergaard, mas são tão ruins quanto.
— Esse é o fardo da coroa, pessoas ruins tomando decisões que em vezes não podemos questionar. — Havia um suspiro cansado em Rudolf. — Seria bom se a coroa não existisse.
— Se a coroa não existisse … — Rachel repetiu olhando o irmão.
Eles se olharam por um tempo, estáticos, sentados ali eles conversaram por horas, acompanhados por William pouco tempo depois, arquitetaram um grande plano, do tipo que sanaria todas às dívidas que a família tinha com o seu povo e que tinha com eles. Ao unirem suas mãos, os três, eles decidiram o destino de milhares, mas um destino em que as coisas poderiam reconstruir pouco a pouco para um cenário melhor do que o atual.
Ao retornar às Ilhas do Sul, Rachel fez o que havia combinado com o irmão e o noivo, a ela cabia assumir o trono e garantir que a instituição que a coroa representava continuaria nas suas mãos para que as decisões pudessem ser tomadas. Rudolf garantiu que às fronteiras de Marmoreal para seu reino fossem fechadas, menos um aliado ao lado da coroa facilitaria a queda, assim como Jorah - seu recém aliado no declínio - garantiu para que às notícias chegassem a Ulstead e Vardowen, para que mais alianças fossem rompidas e enlaces comerciais fossem dificultados.
Para piorar a situação, às águas estavam agitadas, os meses correram e garantiram que o frio do inverno fosse o mais cruel possível, Racheline não tinha como recorrer às sacerdotisas que normalmente amenizariam o clima, seus poderes muito menos eficazes fizeram com que ela ficasse de mãos atadas em ajudar o povo, mas ainda seguindo o seu plano.
Às suas decisões como monarca iam de contra a maior parte das do Conselho Gestor, ela tinha prazer em ver o olhar de desgosto da trinca formada por sua avó Meridiana e seus tios Martina e Snorre, o reino estava em crise e nesse ponto William, seu braço direito, entrou em ação. A missão do guarda era instaurar um clima de revolta no povo, principalmente aquele ao redor do castelo da família real, o povo tinha fome, tinha frio, os impostos estavam altos para cobrir os gastos de coisas que geralmente vinham de graça da aliança com as sacerdotisas, Alfella estava fechada para visitantes e já era considerada como uma ilha independente.
O primeiro grito de independência saiu em um bar.
Ao canto, envolvido em um manto e observando a revolta, William via a faísca se tornar fogo, a ideia de um reino livre das tiranias Westergaard se instaurou, o ódio a sua noiva subia, mas o plano ainda dava certo. Ele reportava a Rachel toda vez que voltava para o castelo, contava a amada, que só confiava nele, sobre o que as pessoas falavam, o povo sofria, mas esse sofrimento os fazia mais fortes e mais odiosos, do jeito que precisavam que eles fossem.
Manter a pose não era fácil, às noites eram regadas de pesadelos, gritos de pânico e se não fosse William dividindo a cama com a rainha com certeza ela teria tomado alguma decisão de ímpeto, não fora uma ou duas vezes em que ela se debateu em meio ao pesadelo ou a uma crise de pânico e ele a abraçou para que ela soubesse que ele estava lá e que ela nãos e machucasse, fazer aquilo com seu povo doía nela, eram pessoas inocentes, mas estariam piores se continuassem assim, às Ilhas do Sul prosperaram em meio a uma falsa bonança, estavam mais trincados que unidos. Às vezes Racheline sentia que seria mais fácil apenas apresentar a proposta de dissolução da monarquia, mas o Conselho Gestor jamais aceitaria.
Às festividades de fim de ano foram apagadas pelo sofrimento do povo das Ilhas do Sul, como era de costume a família real iria para seu refúgio na Ilha de Baláger, onde só retornaria a seu castelo real na capital, Ilha da Coroa, após o ano novo, só que a família estava tão quebrada entre si que eles viraram-se contra a sua rainha, Racheline, alguns guardas escolhidos por ela e William foram às únicas pessoas que partiram, Snorre, Martina, Meridiana e alguns familiares que vieram para o Natal ficaram na capital, deixando mais claro ainda que o Conselho e a Rainha estavam divididos não só instituições, mas como família. Rudolf foi o único que veio passar o natal com a irmã, mas iria embora na manhã seguinte, ele não podia ser visto ali.
— Eu não aguento mais isso. — O suspiro de Rachel ao ser amparada pelo abraço do caçula demonstrava como ela estava. — O povo sofrendo e eu não fazendo nada, nosso embate familiar, o clima daquele castelo … Eu vivo cercada do triplo de guardas e com medo de um deles me matar durante a noite.
— Isso não vai acontecer, amor. — William estava próximo dos dois e os olhava.
— Ele tem razão. — Rudolf se separou dela beijando-lhe a testa. — Lily mandou Feliz Natal.
— Como ela está? — Perder os pais e ter que assumir o trono repentinamente era um golpe que ela sabia como era. — Está conseguindo lidar com os problemas de Marmoreal?
— Ela está bem, Lily é uma boa rainha. — Rudolf sorriu de lado. — Desculpe não poder ter vocês no nosso casamento, mas com esses conflitos.
— Tudo bem, é pelo plano. Que aliás está indo tudo bem.
— Os revoltosos já consideram a ideia de derrubar a monarquia. — William se pronunciou lembrando das conversas no bar. — O povo não sabe que a rainha está aqui, com a família real quase toda da Ilha da Coroa, muitos pensam que a Rachel também está lá.
— Como estão os protestos? — Rudolf queria se inteirar de todas as notícias.
— Calorosos, quase todos os dias, mesmo em meio à chuva, as pessoas se juntam nas praças, nos bares, para pedir por melhores condições de vida, pressionar o Conselho Gestor, mas não há muito o que fazer, nossas alianças foram rompidas, não sobrou nenhuma. — Os lábios da rainha torceram ao pensar naquilo e ocupar um lugar em meio às poltronas da sala. — Você falou com um dos nossos irmãos?
— Sim, com os dois. — Rudolf suspirou. — Dean está bem em Arendelle, apesar de não poder assumir o trono, ele e Elsa estão próximos, ele tem ajudado com os Northuldra. Já a Prudence manda notícias periódicas, ela está feliz com a Red Rose, mas tem passado uma temporada com a tia, Branca de Neve, tem feito uma ponte entre Endora e Valençay, como diplomata.
— É bom saber que eles estão felizes. — Os olhos dela lacrimejaram. — Você também está não é?
— Estou. — Rudolf se aproximou se abaixando perto dela. — Você vai ficar quando isso terminar.
— Ele tem razão. — William confirmou tocando o ombro dela.
A noite de Natal foi longa, eles conversaram sobre os próximos passos de seu plano, para que culminasse no que eles tinham pensado. Rudolf não pode ficar por muito, na manhã seguinte, por meio de um dos portais de Rachel, ele voltou para Marmoreal e suas atribuições como consorte da rainha Lily, mas William e Rachel prometeram que continuariam a mandar notícias, Rudolf era o emissário deles fora das Ilhas do Sul, era quem monitorava às reações dos reinos vizinhos sobre o que acontecia lá.
A semana seguinte, até o ano novo, foi mais solitária que divertida para a rainha, William se ausentou por uma grande parte dos dias, para garantir que os gritos de independência continuassem a retumbar, ainda mais com a família real reunida no castelo principal, o que eles não contavam é que a maioria deles, assim como Rudolf, fosse embora após o natal, deixando só os que moravam ali para trás.
A manhã do último dia do ano começou chuvosa e nublado, não havia na previsão do tempo alguma melhora para as próximas duas semanas, o que só tornava transitar por mar ainda mais complicado, às atividades da escola naval tinham sido suspensas e o exército das ilhas se concentrava em ajudar o povo, o número de embarcações viradas aumentou nas últimas noites daquele ano, tudo culminava pelo caos.
Foi na hora do almoço, que mais parecia um fim de tarde pelo céu escuro e pela chuva, que às pessoas começaram a se aglomerar em torno do castelo da família real na Ilha da Coroa, Rachel assistia a transmissão da televisão local enquanto tomava o seu chá, William estava na Ilha da Coroa e não dava notícias. Os protestos se intensificavam pela tarde, os guardas reais tentavam conter o avanço das pessoas que batiam contra os muros do castelo, mas sem sucesso.
O que a rainha não imaginava era que invasores também permeavam entre os terremos da Ilha de Baláger, sem o seu guarda pessoal ela demorou a entender que a movimentação lá fora não era comum e muito menos amistosa, a noite quase ia caindo quando a chuva diminuiu e o gritos fora do castelo aumentavam. O sinal da televisão local às 19h37, os guardas alertavam que moradores tinham derrubado a torre e parte do sinal de telefone também estava comprometido, o caos estavam instaurado.
— Majestade! — Um dos guardas entrou afoito nos aposentos da rainha. — Precisamos da sua ajuda, os portões não vão aguentar e os moradores vão invadir a propriedade.
— Como estão as coisas na Ilha da Coroa? O sinal da TV caiu. — Ela girou o corpo encarando o homem que estava vestido totalmente com uma armadura. — Onde está William? Ele não voltou.
— O General Ratcliffe não atende nossos telefonemas e os avanços na Ilha da Coroa estão piores que aqui, devemos mover a família real? — O silêncio pairou por breve. — O exército pode intervir para colocar a Rainha Mãe, a princesa Martina e o príncipe Snorre em um local seguro, assim como Vossa Majestade.
— Não! — Rachel foi categórica. — Eu ficarei bem aqui, ajudarei vocês, recuem os homens, vou usar minha magia para segurar os portões, vocês devem ficar seguros.
— E a família real?
— Eles que queimem, parte dessa confusão é culpa deles. Que se virem por lá. — A rainha puxou o casaco sob a poltrona. — Achem William.
A roupa de Rachel era mais pesada com aquela chuva, os guardas afastaram e os portões foram seguros por magia, ali dentro todos eles ficariam seguros, nada passaria pela barreira mágica, que estava ligada com a vitalidade da rainha, os cabelos de Rachel já começavam a desbotar, como se ela estivesse envelhecendo, mesmo que sua faceta continuasse jovial, no auge de deus vinte e cinco anos feitos a não muito tempo, ela não conseguia se lembrar quando passou um último aniversário feliz.
Após garantir a segurança daqueles guardas e daquela residência da família real a rainha usou sua magia para abrir um portal, o mesmo que a levou em meio ao combate e confusão na Ilha da Coroa, iluminada naquela noite pelo caos e tochas de fogo, a energia parecia fraca e ela não sabia a dimensão do caos criado pelo povo, parecia um cenário medieval e confuso. Achar William permeou entre a dificuldade e a complexidade, a ligação deles era como um fio, Rachel conseguia sentí-lo e o encontrou em meio aos manifestantes, o levando para dentro de um dos estabelecimentos que estava vazio, as pessoas estavam amontoadas nas ruas.
— Você está bem? — Ela segurava às mãos gélidas dele e o olhava de cima a baixo. — Não te machucaram?
— O que você faz aqui? Deveria ter ficado na Ilha de Baláger, pra sua segurança. — Ele a repreendeu.
— Não podia deixar você aqui e os manifestantes não estão seguindo o plano, o Conselho não vai ceder, eles precisam invadir o castelo.
— É loucura, os manifestantes vão ver você se avançar pra romper os portões. — A mão dele tocou o rosto dela. — Não faz nada perigoso, não vou suportar te perder de novo.
— Você não vai, nos vemos no porto, ok?
— Ok.
Racheline esgueirou-se entre os manifestantes, os cabelos já tinham uma tonalidade acinzentada por todo seu comprimento, os dedos doíam e a magia dançou por entre as pessoas que empurravam os portões, como uma força extra, ajudando a romper até mesmo parte do muro que veio ao chão, acompanhado de um grito acalorado. Os guardas estavam em menor número, o exército não teve tempo de se juntar na ilha e os marinheiros estavam lidando com os próprios problemas na plataforma em alto mar, era a receita perfeita para o caos.
Rachel assistiu às pessoas entrando e jurou ver a sua avó em uma das janelas, sabia que as pessoas podiam matar Meridiana e também seus tios, mas não se importou, naquele momento o império Westergaard vinha ao chão, não sobraria nenhum deles, ela poderia só sumir sem deixar rastros, mas o seu plano se complicou bastante quando um dos manifestantes a agarrou pelo braço, cansada a jovem rainha só conseguiu olhar estática e ouvir os gritos que se direcionam a ela, ela agora era prisioneira.
A noite fria e longa era preenchida por gritos e nenhum pouco de gentileza, Rachel foi levada a outra parte do porto, mantida como prisioneira, às pessoas falavam sobre sacrificar a rainha, a queda da última majestade Westergaard, tudo que ela menos queria estava ali, não só ela prisioneira, mas William também, dessa vez não em Alcalena, mas amarrados a bolas de metal no porto. O mar que tanto deu aos Westergaard levaria sua última rainha.
— Você tem algo a dizer antes que afunde nesse mar, Majestade? — Um dos homens revoltosos gritou.
— O que houve com minha avó e meus tios? — Ela olhou raivosa, queria garantir que eles não dariam a volta por cima.
— Com sorte nessa hora mortos e que isso sirva a casa Hogebak, acontecerá o mesmo com eles se ousarem subir ao trono. — Ele falava com gosto. — Que Deus a tenha, majestade. Por favor, dessa vez fique morta. Se bem que sem corpo, não terá como voltar, boa passagem pro inferno.
Rachel segurava às mãos de William e lembrava da conversa com Rudolf pouco antes dele voltar no Natal, o irmão se preocupava de como ela iria se virar em meio a problemas inesperados, ele tinha dado a ela uma carta de Prudence, uma carta final, uma instrução, haviam palavras em gaélico e Rachel decorou aquilo e queria não ter que usar, mas agora tinha. Ela abraçou William em meio às lágrimas que sentia caindo no rosto, mesmo em meio a chuva forte que caía.
— Confia em mim? — Ela sussurrou.
— Sempre. — Ele respondeu a abraçando de volta.
A plataforma embaixo de ambos cedeu, William e Rachel amarrados a duas bolas de metal foram puxados para baixo no oceano frio e obscuro, aos poucos seus pulmões enchiam de ar e eles se afogavam, morrendo, mas de mãos dadas, perdendo a consciência para em seguida perder a vida, praticamente. Era 00:27, de 01/01, quando o General William Ratcliffe e a Rainha Racheline Gothel Westergaard foram executados por afogamento no Porto da Esmeralda, pagando por seus crimes contra o povo e a favor da coroa.
Às mãos de Rachel brilhavam, envolvendo ela e William, em seus últimos lapsos de vida e os engolindo em um portal com uma força maior do que o normal, como às mãos da jovem estavam com algemas anti magia, ela não conseguia usar o seu costumeiro poder, graças ao feitiço dado por Prudence ela pode fazer aquilo uma última vez, às palavras da irmã na carta eram categóricas, ela estaria abdicando da sua magia para um bem maior, aquela era uma magia de sacrifício, Rachel abriu mão de ser uma bruxa para poder fugir com William.
Os dois acordaram jogados em uma praia, com o sol quente sob suas cabeças, Rachel acordou primeiro e William pouco depois, cuspindo a água que tinha engolido. Pela primeira vez, desde que era criança, Rachel se sentia vazia, mas se sentia bem, não existia mais um pingo de magia nela, havia apenas o corpo humano comum, ela era como seu amado, só uma pessoa normal. Os dois logo descobriram que entre às árvores havia um vilarejo em meio a aquela ilha paradisíaca, era o seu novo recomeço.
Naquele lugar eles não eram mais William Ratcliffe e Racheline Gothel, eram só o Senhor e Senhora Liebevolle, Rachel inclusive decidiu abandonar até mesmo o seu nome de batismo, se chamando agora apenas de Mayla, em homenagem a Hanna e a Will. Para todos os amigos, com exceção de Rudolf, os dois estavam mortos, assim como Meridiana e Snorre, Martina conseguiu fugir e se mudou para junto de uns poucos irmãos que sobrou.
Às Ilhas do Sul finalmente eram livres, sem monarquia, se tornaram agora A República Federativa do Sul, sem nenhuma ligação com a coroa, era um país com seis províncias paradisíacas, o voto do povo elegia seus representantes, era um lugar mais democrático.
Quanto a Rachel, ou melhor Mayla, e William, eles não precisavam se preocupar com nada a não ser o seu amor, não tinham que levantar cedo da cama, a não ser se quisessem, podiam cozinhar juntos, ver o pôr do sol, ter todo dia o seu final feliz.